A história da teologia católica apresentou no passado, a disputa entre a corrente Tomista (seguidores de Santo Tomás de Aquino), liderada pelos ‘Maculistas’, e a corrente dos Scotistas, liderada pelos ‘Imaculistas’ (seguidores do Beato Duns Scotus). O debate diz respeito ao momento em que a Virgem Maria, Mãe de Deus Filho, é completamente isentada da natureza humana pecaminosa. Para a primeira corrente, Maria é isentada do pecado após ser atingida por ele e contraí-lo, ou seja, após ser concebida no pecado da queda herdado de seus genitores. Para a corrente antagônica — que é o Dogma defendido pela Igreja desde 1854 — a imaculação se deu desde o primeiro instante da concepção da Virgem. Uma análise lógica rigorosa revela que a posição de que Maria deveria, primeiro, ter contraído o pecado original para só após ser purificada não é apenas uma imprecisão cronológica, mas um erro ontológico que compromete a própria natureza da Encarnação do Verbo. Para embasar essa afirmação, apresento os três pilares lógicos e metafísicos que demonstram por que a pureza de Maria só pode ser considerada original e não restaurada.
Se Deus, em sua onisciência, predeterminou que a Virgem Maria fosse o receptáculo carnal do Verbo Encarnado (o Deus que pela carne materna se fez homem na Pessoa Divina do Filho) e desde a eternidade predestinou que ela seria isenta de pecado para essa missão, a permissão de que ela contraísse a mácula original, ainda que temporariamente, seria um ato de "irracionalidade divina", além de uma desnecessária sujeição da eleita ao mal e a corrupção. Ora, qual médico, dotado de compaixão e poder, permitiria que seu paciente contraísse uma doença grave apenas para depois curá-lo, se lhe era possível lhe prevenir do contágio? Não há razão lógica para que Deus permitisse que a "Arca da Nova Aliança" fosse, ainda que por um microssegundo, propriedade do mal e estivesse sob o domínio da queda. Permitir a mácula para depois removê-la seria uma operação de "conserto", enquanto a preservação é uma operação de "perfeição" que mantém intacta a pureza da natureza do ser. Para o Altíssimo, a conveniência da pureza da humanidade da qual a carne do Verbo é tomada, exige o ato mais perfeito: a Plenitude do ser Puro.
Este foi o xeque-mate metafísico no pensamento maculista. Na tradição escolástica, o pecado original é uma condição da natureza humana (essência) transmitida de geração a geração. Quando Maria é purificada no ventre após ser concebida no pecado e contrair a corrupção humana herdade de Adão ( se aceito o argumento dos maculistas), essa Graça santificante atuaria como um acidente [1], não alterando a raiz da natureza humana decaída que ela herdou de Adão. Se a natureza de Maria permanecesse ontologicamente (na origem) vinculada à linhagem do pecado — sendo apenas "limpada" à posteriori — a carne que ela forneceria a Cristo seria, em sua origem, a carne do pecado. Como os acidentes não se transmitem, apenas a essência [2], a conclusão é inevitável: se a fonte é impura em sua essência, o que dela jorra não pode ser puro mesmo que purificadas as suas águas. Para que Cristo assumisse uma carne verdadeiramente santa e pura, Maria precisava ser pura e santa desde a sua raiz constitutiva (Conceição), e não a partir de um conserto sobrenatural (Santificação posterior). Como dito: Se a fonte é impura, tudo que ela gera será impureza, ainda que se purifique as águas: "Quem do impuro poderá tirar o puro? Ninguém!" (Jó 14,4).
A consequência mais grave da posição maculista é a degradação da figura de Cristo Encarnado. Se Maria tivesse contraído em algum momento o pecado, no instante em que o Verbo assumisse a humanidade em seu ventre, Ele teria entrando em contato com uma matéria humana que, em sua essência, já conheceu o mal, a corrupção e já esteve sob o domínio do pecado. Nesse cenário, a Encarnação deixaria de ser o ato pelo qual Deus santifica a humanidade para se tornar um processo onde Cristo purifica a si mesmo primeiro, ao purificar a carne que recebera de Sua Mãe. Isso subverte a ordem da Redenção:
A posição maculista (tomista antiga), ao tentar justificar que o pecado foi contraído por Maria, acaba por ferir a perfeição do próprio Cristo em sua natureza humana e redenção. Somente o dogma da Imaculada Conceição resolve o impasse: Maria é salva de forma sublime e antecipada — não sendo curada de uma queda, mas sendo impedida de cair. Ao preservar Maria desde o primeiro instante, Deus garante que o Verbo assuma uma humanidade que nunca conheceu a mínima sombra do pecado, da maldade e da corrupção, mantendo a distinção absoluta entre o Salvador (a Fonte Pura de toda Graça) e a humanidade decaída (que se corrompeu, e d'Ele agora necessita ser salva).
1. Acidente (Accidens): Na filosofia clássica, o acidente é aquilo que "adere" a uma substância, mas não define o que ela é. Por exemplo, a cor de uma maçã é um acidente; se ela mudar de verde para vermelho, continua sendo uma maçã. No argumento acima, a purificação tardia de Maria seria um "acidente": uma qualidade dada à sua alma que não mudaria o fato de que sua "substância" (natureza humana) veio da linhagem contaminada de Adão.
2. Essência (Essentia): É a natureza de uma coisa, o que a torna o que ela é (a quiditas). A essência humana, após a queda, é transmitida aos descendentes como uma natureza privada da justiça original (pecado original). Como a geração transmite a essência e não os acidentes pessoais (como a santidade pessoal dos pais), Maria só poderia transmitir a Cristo uma natureza pura se ela própria fosse pura em sua essência desde a concepção.