A ação Divina para conduzir o ser humano à salvação não é um evento abstrato ou puramente intelectual. Em sua essência, a salvação concretiza-se na matéria, utilizando elementos naturais como a água, o pão, o vinho e o óleo, dispensados nos sete sacramentos instituídos por Cristo. Deus, criador de toda natureza, nos santifica nos elementos visíveis da sua própria criação, transformando-os em veículos de sua ação invisível de amor.
A enfermidade do pecado — toda conduta pensada, dita e realizada contra o Amor, não é um evento meramente etéreo e impalpável, mas atinge o ser humano em sua totalidade — corpo e alma. Quando a humanidade perdeu a capacidade original de ver a Deus face a face, suas faculdades se desordenaram: a matéria biológica conheceu a deterioração; a razão ficou obscurecida, a vontade enfraquecida e já não consegue por si só se manter no Bem e a psique tornou-se inquieta, buscando inutilmente encontrar em outras coisas, a paz e a felicidade que só há em Deus. Convinha, portanto, que o remédio Divino para a doença humana — o pecado — se adaptasse à nossa condição atual. Por isso, recebemos a ação benigna de Deus pelos sinais visíveis e sensíveis corporalmente nos sacramentos para que, sendo curados no composto natural do corpo, pudéssemos nos elevar em espírito. O CORPO CRUCIFICADO do Cordeiro de Deus nos revelou sua Divindade, e através desse CORPO é que poderemos encontrá-lo, nos sinais da água e do sangue. A ação de Deus não alcançaria plenamente um ser corpóreo que agisse nele apenas espiritualmente, senão, também recebida em sua dimensão corporal, como disse o Apóstolo sobre a antropologia da salvação: “NÃO É O ESPIRITUAL QUE VEM PRIMEIRO, E SIM O ANIMAL; O ESPIRITUAL VEM DEPOIS.” (1 Coríntios 15, 46). Em Jesus, a Pessoa Divina, eterna e invisível, fez-se homem no ventre da Virgem Maria. Nele, o Deus transcendente no tempo, espaço e matéria, tornou sua salvação audível, visível e tocável: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida – porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou." (1 São João 1, 1-2). Cristo, a Encarnação de Deus, tomando para si nossa humanidade, é o sacramento primordial: a HUMANIDADE DE CRISTO é o lugar onde o Divino e o Humano se abraçam definitivamente, e de Sua Humanidade unida à Divindade decorrem todos os sinais sacramentais. Nele, a Divindade humanizou-se para que a humanidade pudesse ser divinizada: "O Filho de Deus fez-se homem para nos fazer Deus." (S. Atanásio, citado no Catecismo da Igreja Católica, nº 460:). Ao assumir nossa natureza carnal, Cristo não apenas nos resgatou, mas elevou nossa natureza à dignidade necessária a nos reconciliar com a natureza Divina. Os SACRAMENTOS são, portanto, a extensão dessa Humanidade Divina de Jesus, que por meio desses sinais, continua a nos tocar através dos séculos. O CORPO CRUCIFICADO do Cordeiro nos revelou sua Divindade; e através desse CORPO é que poderemos encontrá-lo, nos sinais da água, do óleo e do sangue, pelos quais nos é dado interagir com o sagrado.
A salvação é a reconciliação real entre aqueles que estavam afastados. Cristo doou-se por nós, quando tomou nossa natureza para tornar-se sacrifício de justiça na cruz em nome de toda raça humana, cuja desobediência, fruto da desconfiança e desamor a Deus, nos afastou Dele e da vida eterna que só Nele podemos achar: "TRABALHAI, NÃO PELA COMIDA QUE PERECE, MAS PELA COMIDA QUE DURA ATÉ A VIDA ETERNA E QUE O FILHO DO HOMEM VOS DARÁ, NO QUAL DEUS PAI IMPRIMIU SEU SINAL." (S. João 6, 27). Esta doação atingiu seu ápice na Ceia e na Cruz, onde Ele selou a Nova Aliança ao declarar o pão e o vinho como Seu Corpo e Sangue "Enquanto comiam, Jesus pegou um pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos seus discípulos, e disse: — TOMAI E COMEI, ISTO É O MEU CORPO. EM SEGUINDA TOMOU O CÁLICE, DEU GRAÇAS E O ENTREGOU AOS SEUS DISCÍPULOS, PROCLAMANDO: BEBEI DELES TODOS VÓS, POIS ISTO É O MEU SANGUE, O SANGUE DA ALIANÇA DERRAMADO PARA O PERDÃO DOS PECADOS." (São Mateus 26, 26-28). Essa entrega material fundamenta os SACRAMENTOS como SINAIS VISÍVEIS — conforme ensina Santo Agostinho — de um sacrifício que, embora invisível aos olhos naturais, permanece eternamente entre nós. A necessidade desses sinais repousa no mistério do Mediador Único: Jesus Cristo Homem: "PORQUE HÁ UM SÓ DEUS E UM SÓ MEDIADOR ENTRE DEUS E OS HOMENS: JESUS CRISTO HOMEM" (1 Timóteo 2, 5) Nossa humanidade, ferida pela malícia, tornou-se incapaz de receber diretamente a Luz Divina: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis. Pois que afinidade pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas?" (2 Coríntios 6, 14), assemelha-se a um terreno estéril que necessita do adubo da graça para ser purificado (cf. Parábola do Semeador, São Mateus 13). Por isso, convinha que o Filho de Deus participasse de nossa carne e nosso sangue, para que unindo nossa mortalidade à Sua Humanidade incorrupta, fôssemos regenerados (cf. Hebreus 2, 14 / I Coríntios 15, 54: "Visto que os filhos têm carne e sangue, também ele participou da humanidade deles... Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura."). Nós SACRAMENTOS, o natural encontra o Divino para se divinizar; a perfeição se une ao imperfeito para aperfeiçoa-lo, e o finito encontra o eterno para se eternizar. Cristo é a ponte, o caminho que liga o humano ao Divino (São João 14, 6: "DISSE-LHE JESUS: EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. NUNGUÉM VEM AO PAI, SENÃO POR MIM"). Sendo o caminho que desceu do céu, Ele nos deixou sinais celestiais que devemos seguir (Jeremias 10, 2): "ASSIM DIZ O SENHOR: NÃO APRENDAIS OS CAMINHOS DAS NAÇÕES, NEM TEMAIS OS SINAIS DO CÉU"). Nos sacramentos, a Humanidade de Cristo faz-se presente simultaneamente em todos os lugares, pois Sua plenitude habita corporalmente nesses sinais (Colossenses 2, 9:) "PORQUE NELE, HABITA CORPORALMENTE TODA PLENITUDE DA DIVINDADE"). E o que é a matéria humana, senão água e sangue? Ao dissolvermos a constituição biológica, restam os elementos que Cristo escolheu para nos visitar: a água e o sangue que jorraram de Seu lado (1 São João 5, 6: "ESTE É AQUELE QUE VEIO POR MEIO DA ÁGUA E DO SANGUE, Jesus Cristo."). Ele se hospeda em nossa humanidade por meio da comunhão com Sua HUMANIDADE SOBRENATURAL, distribuída nos sinais vindo dos seu CORPO SACRIFICADO, os quais nos tornam participantes de seu sacrifício e herdeiros de Sua imortalidade.