A ação divina para a salvação humana não é um evento abstrato ou puramente intelectual; ela se concretiza na matéria. Nos sete sacramentos instituídos por Cristo, Deus utiliza elementos naturais da criação — como água, pão, vinho e óleo — transformando-os em veículos visíveis de Sua graça invisível. Onde padece a doença, ali se aplica o remédio. A enfermidade do pecado não é pontual, mas atinge o ser humano em sua totalidade (corpo e alma), desordenando suas faculdades: a matéria biológica conheceu a deterioração, a razão ficou obscurecida, a vontade enfraquecida e a psique inquieta. Convinha, portanto, que o tratamento divino se adaptasse à nossa condição atual. Recebemos a ação de Deus por sinais corporais e sensíveis para que, curados no composto natural, fôssemos elevados em espírito. Como ensina o Apóstolo sobre a antropologia da salvação:
“Não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois.” (1 Coríntios 15, 46).
Em Jesus, a Pessoa Divina e invisível fez-se homem, tornando a salvação audível, visível e tocável:
"O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos [...] e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida... " (1 João 1, 1-2).
Cristo é o sacramento primordial. Sua humanidade é o lugar onde o divino e o humano se abraçam definitivamente, e dela decorrem todos os sinais sacramentais. Nele, a divindade humanizou-se para que a humanidade pudesse ser divinizada: "O Filho de Deus fez-se homem para nos fazer Deus" (S. Atanásio, CIC nº 460). Os sacramentos são a extensão histórica dessa Humanidade Divina que continua a nos tocar através dos séculos pelo mistério do Crucificado.
A salvação é a reconciliação real entre aqueles que estavam afastados pelo desamor e desconfiança. Cristo doou-Se por nós na Cruz como sacrifício de justiça, oferecendo o alimento definitivo para essa reconciliação:
“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que dura até a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará...” (João 6, 27).
Esta doação materializou-se na Última Ceia, onde Ele selou a Nova Aliança:
“...Tomai e comei, isto é o meu corpo. [...] Bebei deles todos vós, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança derramado para o perdão dos pecados.” (Mateus 26, 26-28).
Essa entrega fundamenta os sacramentos como "sinais visíveis de uma realidade invisível" (Santo Agostinho), cuja necessidade repousa no mistério do Mediador Único: “Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo Homem” (1 Timóteo 2, 5). Ferida pela malícia e incapaz de receber diretamente a Luz Divina (cf. 2 Coríntios 6, 14), nossa natureza assemelha-se a um terreno estéril que necessita do adubo da graça (cf. Mateus 13). Por isso, o Filho de Deus participou de nossa carne e sangue para que, unindo nossa mortalidade à Sua Humanidade incorrupta, fôssemos regenerados (cf. Hebreus 2, 14 / 1 Coríntios 15, 54).
Nos sacramentos, o imperfeito une-se ao perfeito para ser aperfeiçoado. Cristo é a ponte indispensável: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14, 6), deixando-nos sinais celestiais seguros (cf. Jeremias 10, 2). Nos sinais sacramentais, a plenitude de Cristo faz-se presente em todos os lugares, pois “nele, habita corporalmente toda plenitude da divindade” (Colossenses 2, 9). Ao dissolvermos nossa constituição biológica, restam os mesmos elementos que Cristo escolheu para nos visitar: a água e o sangue que jorraram de Seu lado aberto (cf. 1 João 5, 6). Comungando com Sua Humanidade Sobrenatural distribuída no Corpo Sacrificado, tornamo-nos, na dimensão corpórea e espiritual, participantes de Seu sacrifício e herdeiros de Sua imortalidade.