Por que Cristo inicia o Sermão da Montanha dizendo: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!”?
No tabuleiro das vaidades, onde o ego impõe suas severas regras e o luxo aprisiona numa armadura, o pobre caminha leve. Ele não tem tempo para discussões frívolas ou disputas de aparência, nem precisa se autoafirmar pelo que veste ou pelo carro em que anda. Para quem acorda todo dia com a missão de sobreviver, a chegada é infinitamente mais importante do que o meio que o conduz. A vida, em sua crueza, lhe ensinou o valor do essencial. Ele não luta pelo poder. Para ele, poder sobreviver com dignidade já traz em si uma luta hercúlea. Ele não precisa mais dar a outra face, porque a estrutura social e econômica injusta já o esbofeteou dos dois lados. Ele conhece a dor da rejeição e o peso da escassez, e nisso ocorre verdadeiramente um milagre: a consciência da privação não gera nele avareza, mas simplesmente desapego. Ele não se preocupa em reter nada e, quando encontra alguém disposto a partilhar, dele não apenas recebe o pão, mas lhe devolve na alegria do amor em ato, experimentado naquele que cumpriu o mandamento Divino de amar o próximo. Essa postura não é mera contingência social; é altivez espiritual.
O pobre é o megafone do mundo a clamar a todo tempo pela justiça de Deus à humanidade necessitada, seja ela abastada ou carente de bens materiais. Essa pobreza evangélica é a denúncia da maldade estrutural que idolatra o “ter” em detrimento do “ser”, tendo o Evangelho de Jesus como o operador necessário à transformação social das injustiças, para trasladar a humanidade da pobreza à dignidade.
O Reino pertence aos humildes e pequenos. Jesus não apenas se compadeceu dos pobres, mas tornou-se um deles. (Catecismo §544)
Ele escolheu nascer na manjedoura, viver na indigência financeira e morrer na cruz. Ele se identificou com eles de tal forma que transformou a prática do amor ativo para com os marginalizados no critério definitivo para a salvação (Mt 25).
Sendo Cristo o único rosto visível de Deus, o pobre é o rosto visível do Cristo na história. Entender isso é compreender a primeira bem-aventurança: o Reino é daqueles que mantêm o coração desarmado e livre para buscar aquilo que é Absoluto.