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  • A Cruz de Cristo e a cruz dos Desamparados.

A Cruz não foi apenas o cenário de um julgamento injusto, mas o lugar onde o Criador do Universo experimentou a dor limite das privações humanas. Ao clamar “Tenho sede!” (Jo 19, 28), Jesus não estava apenas manifestando uma necessidade biológica decorrente da desidratação do flagelo; Ele estava mergulhando na realidade de milhões de filhos Seus que, ao longo dos séculos, colhem a secura da terra e a escassez do pão. Aquele que transformou água em vinho e multiplicou os pães para a multidão, escolhia agora, no ápice de sua entrega, não realizar milagres para Si mesmo. Ele permitiu que sua boca secasse e que seu estômago sofresse o vazio da fome para que nenhum faminto ou sedento não se visse Nele representado. Na Cruz, Cristo tornou o seu sacrifício a imagem da agonia dos esquecidos. Ao receber vinagre de Seus algozes em vez de água pura, Ele tomou para si o ‘vinho apodrecido’ da indiferença que, ainda hoje, nega o sustento básico aos mais vulneráveis. A fome e a sede no Calvário foram instrumentos da tortura que Jesus transformou em canais de profunda comunhão com os vulneráveis. Ele humanizou a Sua Divindade ao ponto da dor e da privação, para que a humanidade desfigurada pela miséria fosse dignificada em seu sofrimento. O sacrifício da Cruz se atualiza no altar da Ceia Eucarística que nos obriga a olhar para a fome do próximo com os olhos do próprio Cristo: 

«A comida e a água são direitos universais sem distinção, nem discriminação. [...] Portanto, é necessário que amadureça uma consciência solidária que considere a alimentação e o acesso à água como direitos de todos os seres humanos» (Carta Encíclica Caritas in Veritate, n. 27 Papa Bento XVI).

O sofrimento dos que choram pela falta de pão e água encontra no Crucificado não um Deus distante, mas um companheiro da agonia que conhece o peso da carência gerada da ganância e do desdém social. Unindo o Pão do Altar ao pão da mesa do faminto, descobrimos que a caridade para com estes é a verificação real da nossa fé. 

Conclui Bento XVI:

«Jesus — é um "coração que vê". Este coração vê onde há necessidade de amor e age de modo consequente» (Deus Caritas Est, n. 31). 

É do alto do Madeiro que o Coração de Deus continua aberto, em sua costela rasgada da qual verteu água e sangue para saciar a terra com purificação e o Pão da Vida


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