A Igreja ensina (Catecismo §404-§405) que há um pecado original, que não é um ato ou falta cometida individualmente, mas um estado de privação. Ao contrário do pecado pessoal (ato de vontade), ele é a "ferida aberta" na natureza humana, transmitida por propagação a todos os descendentes de Adão e Eva. Estes, embora criados em perfeição, foram os primeiros a contraírem esse estado. Essa condição significa que nascemos imperfeitos, e, portanto, privados da companhia de Deus na vida eterna. Com essa natureza enfraquecida em suas forças naturais e submetida ao império da morte, e falha por conta da inclinação para a autodestruição, tal condição de exílio espiritual exige a regeneração através da bondade Divina que Ele nos comunica pelo Batismo através de seu Filho Divino, para restaurar a amizade entre Deus e a humanidade. O Batismo é, assim, a extensão da HUMANIDADE SOBRENATURAL de Cristo em seu sacrifício redentor que nos liberta dos pecados, especialmente do Original. Este pecado gerou um abismo intransponível entre Deus e a humanidade, fruto de nossa reprovação diante d'Ele. Tal abismo só pode ser transposto pela ação do próprio Deus que, ao se tornar um de nós para oferecer-se em sacrifício, reabilitou-nos da condição de filhos perdidos para a dignidade de Filhos de Deus pela Bondade e seu Perdão. As naturezas HUMANA E DIVINA de Nosso Senhor — confirmada pelo fato de que Ele assumiu nossa carne para nos salvar (cf. Hebreus 2, 14) — nos são comunicadas mediante os sinais da crucificação. Entre esses sinais do seu CORPO CRUFICICADO, destaca-se a ÁGUA: “Eis o Cordeiro de Deus, que retira o pecado do mundo" (S.João 1, 29); “(...) contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água (São João 19, 34) Ei-lo Jesus, aquele que VEIO PELA ÁGUA e pelo sangue” (1 João 5, 6). Essa água, que escorreu do pericárdio de Cristo, é o sinal sagrado que provém de seu CORPO SACRIFICADO. Sendo elemento indispensável à vida natural, a água também foi elevada por Cristo a elemento indispensável para a vida espiritual, como instrumento de regeneração. Ao santificá-la em seu CORPO SANTO, a água agora atua para nos purificar e santificar, como antídoto sobrenatural contra o pecado que contamina a natureza e impede a ressurreição: “Fomos sepultados com Ele em sua morte pelo Batismo, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova.” (Romanos 6, 4).
A história da salvação é repleta de sinais que apontavam para o sacramento das águas. O apóstolo João reforça: “Ei-lo, Jesus Cristo, aquele que VEIO PELA ÁGUA e pelo sangue” (1 Jo 5, 6). Aqueles que são lavados por essa água tornam-se felizes, pois “(...) lavam as suas vestes para ter direito à árvore da Vida e poder entrar na Cidade pelas portas” (Apocalipse 22, 14). Aqui, as "vestes" simbolizam nosso exterior (corpo e alma) purificado da corrosão da "velha tenda" (o corpo no estado de pecado eterno) para serem revestidas de uma "veste nova" (a veste do perdão e da reconciliação com Deus), como descrito em 2 Coríntios 5, 4. Uma das figuras emblemáticas do Batismo futuro ocorre nas Águas de Meribá (Números 20, 5-13). Na ocasião, o povo sedento no deserto reclamou contra Moisés, que feriu o rochedo com sua vara e dele a água jorrou em abundância:
5. Por que nos fizeste sair do Egito e nos trouxeste a este péssimo lugar, em que não se pode semear e onde não há figueira, nem vinha, nem romãzeira, e tampouco há água para beber? 6. Moisés e Aarão retiraram-se de diante da assembleia e foram à entrada da Tenda da Reunião. Prostraram-se com o rosto por terra e apareceu-lhes a glória do Senhor. 7. O Senhor disse a Moisés: 8. "Toma a tua vara e convoca a assembleia, tu e teu irmão Aarão. Ordenareis ao rochedo, diante de todos, que dê as suas águas; farás brotar a água do rochedo e darás de beber à assembleia e aos seus rebanhos". 9. Tomou Moisés a vara que estava diante do Senhor, como ele lhe tinha ordenado. 10. Em seguida, tendo Moisés e Aarão convocado a assembleia diante do rochedo, disse-lhes Moisés: "Ouvi, rebeldes: acaso faremos nós brotar água deste rochedo?". 11. Moisés levantou a mão e feriu o rochedo com a sua vara duas vezes; as águas jorraram em abundância, de sorte que beberam o povo e os animais. 12. Em seguida, disse o Senhor a Moisés e Aarão: "Visto que não crestes em mim e não fizestes resplandecer a minha santidade diante dos israelitas, não introduzireis esta assembleia na terra que lhe dei". 13. Estas são as águas de Meribá, onde os israelitas se queixaram do Senhor e onde este fez resplandecer a sua santidade."
Este episódio é um tipo (figura) do Batismo por cinco razões fundamentais:
A água batismal, operando pela fé, torna-se o meio pelo qual a HUMANIDADE DE CRISTO nos alcança, iniciando o processo de reconciliação necessário para a ressurreição: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3, 27). Negar o Batismo a si mesmo ou a outrem é impedir que o Dom Sobrenatural da Fé floresça rumo à caridade plena. Sem o Batismo, o ser humano conta apenas com virtudes morais humanas que, embora louváveis, podem ser insuficientes e ineficazes para produzir em nós as condições que nos leva à salvação de Cristo, quais sejam: a renúncia, a consciência do erro e o arrependimento perfeito.
As Escrituras são taxativas:
Neste último trecho, a “água e o espírito” aludem às duas naturezas de Cristo: a Humana (Água) e a Divina (Espírito), unindo-nos em um só corpo (cf. I Cor 12, 13).
Em regra, não se transpõe o estado de separação de Deus apenas por esforços intelectuais ou devocionais. O Sacramento do Batismo é a extensão material do sacrifício de Cristo em nós. Somente ele retira o obstáculo do pecado original, permitindo que nosso arrependimento seja válido e que caminhemos em comunhão real com o Cordeiro. Não é símbolo público e vazio de ingresso em uma instituição religiosa; é um evento real e sobrenatural da salvação, na comunhão do nosso corpo com o CORPO DAQUELE que é o fundamento da misericórdia em nossa morte e ao mesmo tempo, a esperança da ressurreição para a vida eterna.