A Natureza de Deus e o Sentido da Fé
Deus não necessita de fé, pois Aquele que tudo sabe e tudo contempla não precisa acreditar. O conhecimento pleno e direto da realidade dispensa a crença, visto que a fé é a certeza das coisas que não se veem, ao passo que Deus vê e conhece a tudo e a todos de modo absoluto e inequívoco. A fé é, portanto, um dom sobrenatural infundido por Deus de modo próprio e exclusivo no ser humano — e jamais na divindade —, uma virtude teologal cuja resposta legítima desborda na prática concreta do bem — no cuidado, na bondade e na doação ao outro. É por meio dessa ação transformadora que o ser criado harmoniza a sua vontade com a do Criador, tornando-as uma só. Esse movimento de união encontra seu modelo supremo na pessoa de Jesus Cristo — a expressão perfeita do bem, que é imagem da nossa humanidade enquanto homem e imagem viva e consubstancial do Pai enquanto Deus.
Onde falta Amor e inclusão a religião se esvazia do seu conteúdo Divino, dando lugar a arrogância, a soberba, a pretensiosidade e a impiedade perversa. A verdadeira religiosidade não pode ser reduzida a um formalismo abstrato e uma liturgia vazia. O Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, n. 43) aponta o divórcio entre a fé professada e a conduta cotidiana como um dos erros mais graves da vida espiritual. A falsa religião atua sufocando o coração com o egocentrismo: ela ardilosamente mantém a proclamação verbal de certas verdades de fé, mas elimina o seu fruto em gestos reais de bondade, cuidados e partilhas. Como definiu o Concílio de Trento (Sessão VI), a fé desprovida do bem-querer ao próximo permanece inerte. Não basta a confissão íntima da fé que despreza sua atuação prática; a salvação exige uma confissão visível, palpável e objetiva, onde a fé se expressa através do serviço e da solidariedade concreta.
A prática do Bem jamais se contrapõe à fé; pelo contrário, é a sua manifestação viva. No horizonte da consumação final, a Escritura ensina que a separação entre justos e injustos recairá sobre a concretude do amor demonstrado em ato (cf. Mt 25,31-46; Tg 2,14-17). Os filhos da misericórdia serão acolhidos no Reino pela apuração de suas obras de fraternidade e empatia, enquanto a esterilidade daqueles que fecharam o coração às necessidades alheias será recriminada. Onde faltam a bondade ativa e o cuidado com o outro, Deus não se faz presente, pois Ele é Amor e o Amor só existe e subsiste em ato. por essa razão que o apóstolo São Tiago define com precisão o critério da autêntica vivência espiritual: "A religião pura e sem mácula diante de Deus Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção deste mundo" (Tg 1,27).