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O Predestinado É Salvo Sem Perder Sua Liberdade?

R: A predestinação não anula o livre arbítrio. Deus, em sua Presciência (conhecimento de todos os futuros), elege infalivelmente alguns para a eternidade. Contudo, Ele não viola psicologicamente a vontade desses eleitos. Deus deseja que todos sejamos salvos, pois a todos Ele ama. A perdição não vem d'Ele: Deus quer que todos os homens sejam salvos. (1 Tm 2, 4); "O povo insensato lança-se a perdição. (Oseias 14: 4)" Atingir a vida eterna, no entanto, implica rejeitar o mal e aderir livremente a bondade. A verdadeira liberdade consiste em nos movermos espontaneamente em direção ao Bem que só Deus pode realizar em nós. 


Capítulo I: A Escolha Livre e o Chamado Irresistível ao Predestinado. 

Liberdade nos Permite Escolher? 

R: Sim. Livre Arbítrio é a faculdade da razão e da vontade que nos permite escolher entre o Bem e o mal. Originalmente, a liberdade era apenas a escolha entre vários bens. Essa liberdade se perverteu, facultando também a escolha do mal. O pecado não é obra de Deus. Ele nasce da desordem da liberdade que, sem freios, nos leva a desejos insensatos e nocivos. Mas Deus é justo, pois premia os justos que se conduziram espontaneamente ao Bem, porque: 

  • A Punição ou Recompensa justa: Se o ser humano não fosse dotado de vontade livre, castigo e recompensa seriam injustos porque não pode responsabilizar quem não é livre para fazer suas próprias escolhas 7.
  • O Dom da Liberdade: A conduta humana não seria má, nem boa se não fosse voluntária 14. A Igreja, no Concílio de Trento, rejeita aos que dizem que o livre arbítrio se perdeu após o pecado. 12.

Capítulo II: A Predestinação Eficaz

Da Predestinação Enquanto Exceção. 

Deus realiza seus propósitos nos seres humanos pela Providência (regra) e pela Predestinação (misteriosa exceção) 8. A Predestinação é a atuação de Deus que em Sua Presciência (poder de prever todos os futuros) antecipa a salvação daqueles que Ele sabe que estarão incondicionalmente dispostos a recebê-la, e em nenhum momento da vida duvidarão ou oscilarão 9.

Em Regra, o Convite de Deus é Aprazível, Mas Não É Impositivo: 

  • Atração Estimulante: Deus atua no eleito para que ele O queira com arrebatador ardor na alma, fazendo-Se desejável de modo irresistível e mediante um impulso irrenunciável 11.
  • Criação de Circunstâncias: Deus não coage tirando do eleito a vontade, mas cria ao redor da vivência humana os fatos e experiências que, como agentes externos, atrairão e ordenarão inevitavelmente a vontade do eleito a vê-lo de maneira mais clara em toda sua beleza e perfeição, e isto o instiga irresistivelmente a buscar e alcançar a salvação.
  • Causalidade Mútua: Deus é a Causa Primeira e Principal da predestinação. Ele atua em conjunto com a livre vontade humana, que é a Causa Secundária e coadjuvante 13. A força maior de Deus atua para que a força menor do ser humano participe desse nobilíssimo movimento rumo à salvação:

"Sabemos que todas as coisas CONCORREM para o bem daqueles que amam a Deus, DAQUELES que são os ELEITOS, segundo os seus desígnios. Os que ele distinguiu de antemão, também os PREDESTINOU para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou. (Romanos 8: 28 -30) 

A salvação para o eleito é o efeito certo da predestinação; e o Bem que ele fará no futuro é a finalidade pela qual Deus o elege, e não a causa de Sua escolha 10. 


Capítulo III: A Providência e o Risco da Queda nos Não Predestinados.

Nos não-eleitos, Deus age pela Providência, naqueles que Ele anteviu que teriam uma vontade dúbia e oscilante. 

  • Possibilidades Amplíssimas: Deus move os não-eleitos e providencia condições eficientes para a salvação, mas sem que essas condições criem neles um apetite irresistível à bondade, pois se ainda há na alma desse indivíduo dúvida ou oscilação, move-los a salvação contra sua vontade implicaria coação. A salvação fica, neste caso, à mercê da livre escolha.
  • Resistência à Graça: Podemos livremente repudiar a ação da Providência, resistir ao Espírito Santo 18, ou até mesmo cair na apostasia 19. O Concílio de Trento rejeita a tese de que "não podemos nos separar de Deus, mesmo querendo 20: "Ora, Efraim transviou-se e Israel maculou-se; (Oseias 5, 3)"  
  • A Culpa é Humana: A falibilidade da não-salvação não pode ser imputada ao Salvador, mas tão somente à vontade livre do indivíduo 21. "Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. (Sabedoria 1, 13)"

  • A Igreja, ao manter o equilíbrio entre a Soberania de Deus e a Liberdade de Escolha, assegura que a salvação é  dom de Misericórdia Divina que exige a cooperação da vontade humana, sem a qual não haverá justiça na recompensa.

Referências:

  1. Sabedoria 1, 13; Oséias 13, 9; I Timóteo 2, 4.
  2. I Timóteo 6, 9.
  3. Deuteronômio 11, 26, 27 e 28.
  4. Romanos 7, 18 e 19.
  5. AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Q 83, Art. 1º.
  6. I Coríntios 12, 6.
  7. AGOSTINHO. Do Livre Arbítrio. Cap. 12, Cap. 14.
  8. Romanos 8, 28-30.
  9. MOLINA, Luís de. Concórdia. d. 26, 15, p. 170.
  10. Efésios 1, 3, 4, 5 e 6.
  11. Romanos 9, 11 e 13.
  12. CONCÍLIO DE TRENTO. Cân. 5; Cân. 4.
  13. DAMASCENO, João. A Fé Ortodoxa. l. cap. II.
  14. Eclesiástico 15, 14.
  15. Sabedoria 14, 3; Atos dos Apóstolos 24, 2.
  16. Josué 24, 15.
  17. Hebreus 10, 36; São Mateus 24, 13.
  18. Atos 7, 51.
  19. Oséias 4, 14.
  20. Hebreus 6, 5.
  21. São João 6, 45.
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