Por incrível que pareça, existe uma visão que deprecia a Paixão de Cristo no seu Martírio, considerando-a uma derrota, uma maldição a ser esquecida e desprezada. Esta negação do valor sacrificial da morte de Cristo é um erro gravíssimo, que implica rejeitar a Verdade Divinamente Revelada e a negação do próprio meio pelo qual a salvação nos é oferecida e efetivada.
No Plano Redentor, a Paixão de Cristo é a Causa e a Ressurreição é o Efeito. E toda causa é sempre superior ao seu efeito.
Santo Tomás de Aquino ensina:
“Também a Justiça depende da Vontade Divina, que exige do próprio gênero humano, a satisfação pelo pecado.”[1]
"Satisfazendo o Cristo por Ele, com sua Paixão, venceu o diabo e liberou o homem, não pelo só poder da Divindade, mas também pela justificação e pela humilhação da Paixão..."[2]
Na Antiga Aliança, o sacrifício que removia a culpa era realizado pela MORTE dos cordeiros animais, que prefiguravam o sacrifício de Cristo: "SACRIFICARÁS um NOVILHO em SACRIFÍCIO que PAGA A CULPA pelo pecado; por esse sacrifício TIRARÁS O PECADO do ALTAR, (Êxodo 29. 36)" Com a Paixão, o Sacrifício Maior, Perfeito e Suficiente, aboliu-se o culto simbólico.
“Eis o CORDEIRO DE DEUS, que TIRAIS O PECADO DO MUNDO!” (São João 1. 29)
O "tirar o pecado do mundo" é uma função de Cristo em Sua condição de Cordeiro, apontando que a purgação humana se realiza no ato de sacrifício. Na Cruz, Deus assume a velha natureza humana para que, morrendo nela, mate também o pecado:
Tudo que Cristo padeceu em sacrifício se ordenava à nossa salvação. Santo Tomás explica que as condições da redenção são "o ato de pagar e o preço a ser pago. O preço da nossa redenção é o preço de Cristo, ou a sua vida corpórea que estava em seu sangue. E esse preço Cristo mesmo pagou. Por onde, o ato de pagar e o preço do pagamento pertencem a Cristo, enquanto HOMEM."[3]
O sacrifício é a CAUSA SUFICIENTE para nossa salvação. Lembremos das palavras finais de Cristo na cruz: "Está CONSUMADO! E inclinando a cabeça, rendeu seu Espírito.” (São João 19, 28-30).Desta forma, a Ressurreição é o EFEITO que testemunha a aceitação por Deus do pagamento efetuado, removendo os obstáculos da Justiça que impediam nosso acesso à vida eterna. A maldição se tornou Benção (Gal. 3. 13).
“Se fomos feitos o mesmo ser com Ele por uma morte semelhante à sua, SÊ-LO-EMOS IGUALMENTE POR UMA COMUM RESSURREIÇÃO.” (Romanos 6,5)
A Ressurreição garante nossa participação plena nos Bens Divinos adquiridos pela Morte de Cristo (vida eterna, santidade), tanto em corpo quanto em espírito.
Santo Agostinho resume:
"Foi entregue por causa dos nossos pecados, ressurgiu por causa da nossa justificação."[4]
A fé que busca a salvação (o efeito) baseada apenas na ressurreição, em desprezo à causa (a crucificação e o sacrifício), está equivocada, pois não se pode obter um efeito sem a causa. Cristo veio para morrer por nós em sacrifício – e não por morte natural, que é a consequência do pecado que Ele não tinha.
Referências:
1. Suma Teológica, Q 46, art. 2º da Paixão de Cristo.
2. Suma Teológica, Q 46 art. 3º Paixão de Cristo.
3. Suma Teológica, Q 53, art. 5º da Ressurreição.
4. Santo Agostinho, Sermão da Ressurreição, citando Romanos 4:25: "Foi entregue por causa dos nossos pecados, e ressuscitou por causa da nossa justificação."