Nenhum fruto subsiste por si mesmo; ele é o ápice de um processo vital que o precede. Na ordem espiritual, o fruto não é senão o resultado amadurecido da operação dos dons do Espírito Santo na alma humana. Enquanto a árvore serve de base, o fruto é a sua manifestação final de excelência. Os dons são disposições sobrenaturais infundidas pela Graça Santificante, que elevam o ser humano para além de sua capacidade natural e de seus instintos. Eles são potências ou capacidades que tornam a alma dócil e mais inclinada às moções divinas:
“A vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito Santo. Estes são disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo.” (Catecismo da Igreja Católica, §1830).
"Eles completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que os recebem. Tornam os fiéis dóceis para obedecer prontamente às inspirações divinas." (Catecismo da Igreja Católica, §1831).
As Escrituras enumeram sete dons principais: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus (Isaías 11, 2). Por meio deles, o fiel é capacitado a pensar e agir unido com Deus, produzindo os frutos necessários à vida operativa e contemplativa. Diferente dos dons — que são disposições anímicas infundidas na natureza e na vontade — os frutos são os atos concretos e incontáveis, gerados a partir dessas potências. Ensina Santo Tomás de Aquino que os dons auxiliam os frutos a se tornarem habituais, permanentes e contínuos, conferindo alegria e plenitude a todo bem realizado. E, “como o fruto é o fim de uma operação perfeita, nada impede que haja 'fruto de outro fruto'” (Suma Teológica, I-II, q. 70, a. 1), o que torna as manifestações do Espírito virtualmente incontáveis na vida fraterna. Contudo, a Igreja, seguindo o Apóstolo São Paulo, destaca doze frutos principais (Gálatas 5, 22-23): Caridade, Alegria, Paz, Paciência, Longanimidade, Bondade, Benignidade, Mansidão, Fé, Modéstia, Continência e Castidade. Aqui, cabe uma distinção refinada: a Benignidade é a disposição interior de querer o bem (dimensão subjetiva), enquanto a Bondade é a sua execução em atos benfazejos e condutas concretas (dimensão objetiva). Já a Longanimidade atua como a coragem de esperar o tempo de Deus, sustentando a alma na perseverança. Estes frutos são condutas habituais de quem vive em estado de graça, agindo sob a orientação superior do Amor que se aperfeiçoa na renúncia e na partilha em favor do outro, seguindo o exemplo que Cristo, a Bondade Divina Encarnada, nos deixou na história.
Se os dons são a potência e a semente, os frutos são o ato da colheita. E a transição da “semente” (potência) para o "fruto” (ato) ocorre ordinariamente por meio dos Sacramentos, que são os canais ordinários guardados no depósito da fé da Igreja Católica, Apostólica Romana. O Batismo é a porta de entrada para essa nova vida, dando-lhe o nutriente espiritual necessário para que os dons produtores dos frutos floresçam em abundância, santificados na água, sinal sensível e visível do sacrifício bendito e redentor de Cristo na Santa Cruz. Conforme narra o Evangelista: “Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Dessa fonte aberta brota a eficácia sacramental:
“O santo Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Batismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e feitos participantes na sua missão.” (Catecismo da Igreja Católica, § 1213).
A Santíssima Trindade confere ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, que o torna capaz de crer em Deus, esperar n'Ele e o Amar pelas virtudes teologais; lhe dispondo viver e agir sob a moção do Espírito Santo e pelos dons do Espírito Santo lhe permite crescer no Bem, pelas virtudes morais. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo. (Catecismo da Igreja Católica, § 1266).
Pense na natureza humana como uma "laranjeira brava". Por si mesma, ela é incapaz de produzir frutos doces. Ela precisa ser enxertada (Batismo) para receber uma nova natureza (Graça). Uma vez enxertada, o Espírito Santo atua como o sol e a água, transformando a potência do enxerto na realidade dos frutos. Esta analogia define a restauração da natureza humana corrompida por ocasião do Batismo. É importante notar que, embora os sacramentos sejam o caminho ordinário, o Amor de Deus não conhece fronteiras. Como recorda o Papa Francisco na Encíclica Dilexit Nos:
“O Coração de Cristo é o centro da misericórdia... o Sagrado Coração de Jesus é uma fonte aberta para toda a humanidade.”
A graça santificante pode agir concretamente em pessoas de diversos credos, pois o Espírito "sopra onde quer" (Jo 3, 8), provando que nem os dons nem os frutos são inatos à nossa natureza ferida, mas presentes gratuitos de um Deus que os deseja comunicar a todas e a todos de coração aberto a recebê-los. Como disse São Francisco de Sales:
"As virtudes são como as flores do jardim da alma; os dons são como o desabrochar dessas flores sob o sol; e os frutos são o mel que as abelhas (a alma) colhem de tais flores com doçura." (SALES, Francisco de. Tratado do Amor de Deus. Livro XI, Cap. XVIII.)