
Todo sacramento é um ato real de comunhão. Longe de constituir um rito isolado, o sacramento é o sinal sensível da união entre a Humanidade divinizada de Cristo — como o Remédio Redentor — e a humanidade enferma que d’Ele necessita. Quando a água e o sangue jorraram do peito aberto de Jesus no Calvário (1 Jo 5, 6), a Vida Divina adquiriu a forma de um sacrifício corporificado: o Sangue caiu sobre a terra para purgar o débito do pecado do mundo e a Água lavou as manchas da criação, inaugurando vida sacramental como parte do Culto necessário à salvação.
1. A Eucaristia e as Modalidades da Comunhão Sacramental: A Eucaristia é o sacramento da comunhão por excelência, pois realiza a união substancial e mais íntima possível entre a Carne e o Sangue de Cristo e a nossa própria carne. Contudo, os demais sacramentos não deixam de ser atos autênticos de comunhão, pois todos derivam da mesma Humanidade sacrificada e ressuscitada. No Batismo, a comunhão realiza-se como novo nascimento pela morte e ressurreição do Senhor que nos torna Filhos de Deus em comunhão com Sua Igreja, seu Corpo; no Matrimônio, a união biológica dos esposos torna-se o reflexo visível da comunhão esponsal e indissolúvel entre Cristo e a Igreja. Cada sacramento desdobra uma dimensão específica desse encontro entre a fragilidade humana e a plenitude do Verbo Encarnado.
2. A Configuração a Cristo Segundo o Concílio Vaticano II: A teologia conciliar reafirma que a vida de Cristo se difunde nos fiéis precisamente por meio dos sinais de sua Humanidade chamado Sacramentos, unindo-os de modo misterioso e real ao Senhor padecente e glorioso: “Pelo Batismo somos assimilados a Cristo: ‘todos nós fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um só corpo’ (1 Cor 12, 13). Por este rito sagrado é representada e realizada a união com a morte e ressurreição de Cristo: ‘fomos sepultados, pois, com Ele, por meio do Batismo, na morte’; se, porém, ‘nos tornámos com Ele um mesmo ser orgânico por morte semelhante à Sua, por semelhante ressurreição o seremos também’ (Rom 6, 4-5). Ao participar realmente do Corpo do Senhor, na fração do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós: ‘Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto participarmos todos do único pão’ (1 Cor 10, 17).” (Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 7) Deste modo, tornamo-nos membros desse Corpo (1 Cor 12, 27) e individualmente membros uns dos outros (Rom 12, 5). O objetivo de toda prática sacramental é a conformação com o caráter do Redentor, até que Cristo se forme plenamente em nós (Gál 4, 19), assumindo-nos nos mistérios de Sua vida para mortificar a velha humanidade e nos fazer unidos à Ele (Fil 3, 21; 2 Tim 2, 11).
3. O Corpo Místico como Sacramento Primordial: Os sacramentos da Crisma, da Confissão, da Unção dos Enfermos e da Ordem pressupõem radicalmente a comunhão que provém do Batismo e da Eucaristia. A razão é direta: não há sacramento fora da Igreja, porque a própria Igreja é o Corpo Místico de Cristo — o sacramento primordial de onde derivam todos os outros cinco selos. A Ordem institui os ministros que agem na pessoa do Cabeça da Igreja que é Cristo; a Confissão restaura a comunhão quebrada com o Corpo; a Crisma fortalece a união dos membros para como Corpo; a Unção prepara a carne enferma para a restauração ou para o reencontro definitivo com Cristo. Assim, todos os sacramentos são fluxos de uma única e mesma fonte: a Humanidade Santíssima de Jesus que se entrega para que possamos, em corpo e alma, participar de Seu único e eterno Sacrifício.