Sacramentos São Ordenanças Obrigatórias ou Favor Divino?

Perguntar se os Sacramentos são ordenanças impostas ou um favor divino é questionar a própria natureza da salvação. Deus, que criou o ser humano sem a colaboração deste, não o salva sem o seu consentimento livre. Por essa razão, os Sacramentos da Nova Aliança (o batismo quando aplicado em adulto, a crisma, a Eucaristia, a confissão, o matrimônio, a ordem e a unção aos enfermos) — embora necessários para a vida espiritual e eterna — jamais constituem um jugo violento ou uma obrigação mecânica: eles são a acolhida amorosa do ser humano à oferta da Graça. 

1. A Liberdade da Vontade como Condição do Mistério 
A salvação nasce do amor, e o amor exige a livre adesão da vontade naqueles que atingiram a idade do juízo. Nos adultos e naqueles que possuem o uso da razão, a disposição interior de participar da vida sacramental pertence à própria essência e validade do ato. Um Sacramento imposto externamente contra a intenção do fiel é desprovido de eficácia interior, pois Deus não habita uma alma que Lhe fecha as portas. Ninguém pode receber a absolvição na Confissão se não houver um verdadeiro arrepender-se e o firme propósito de mudança; ninguém pode ser compelido a unir sua carne à Carne de Cristo na Eucaristia sem o desejo sincero dessa comunhão; da mesma forma, o Matrimônio e a Ordem Sacerdotal exigem o consentimento plenamente livre dos contraentes e do ordinando. Para que o sinal sagrado produza seus frutos, o coração humano deve estar disposto a acolher os mistérios divinos com a mesma prontidão com que acolhe o próprio Cristo.]

2. A Diferença entre Ordenança Vazia e Sacramento Transformador 

As meras "ordenanças" ou rituais puramente legalistas são atos exteriores que não possuem virtude para mudar o estado interior do ser humano. Elas começam e terminam na execução do rito, incapazes de penetrar a consciência ou de lavar as manchas da alma. Os antigos ritos cerimoniais da Velha Aliança — como os sacrifícios de animais, as prescrições alimentares, guarda sabática e as purificações legais —, embora tivessem seu valor pedagógico temporário, eram figuras impotentes para conferir a salvação ou transformar o pecador diante de Deus. Os Sacramentos da Igreja, ao contrário, não são ritos vazios. Eles operam uma transformação real e profunda: por meio deles, Deus nos acolhe sob uma nova condição, regenerando a nossa carne pecadora e enxertando-nos no Corpo de Seu Filho, que pagou o débito do pecado no Calvário. O Sacramento não é dever burocrático que esgota a sua finalidade em si mesmo, mas um canal vivo que comunica as virtudes de Cristo e nos torna participantes de Sua natureza divina: "A Lei traz apenas a sombra dos bens futuros, não a imagem real das coisas. Por isso, incapaz de aperfeiçoar aqueles que se aproximam de Deus mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, pois é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados.” (Hebreus 10, 1.4) 

3. O Favor Divino Que Nos Cura. 
Como ensina a tradição da Igreja e confirma o Catecismo (§ 1128), os Sacramentos operam pela própria virtude da ação de Cristo, mas seus frutos dependem da disposição de quem os recebe. Deus não instituiu os Sacramentos para criar obstáculo ou impor um fardo insuportável à humanidade, mas como facilitadores e remédios da salvação. Não são ordenanças impositivas da Lei, mas a expressão máxima do favor e do amor de Deus. São pequenos sinais milagrosos que nos ligam à realidade do Sacrifício da Cruz, reparando as nossas faltas, curando a nossa liberdade ferida pelo egoísmo e preparando a nossa alma e o nosso corpo para a vida eterna: “Os fiéis, incorporados na Igreja pelo Batismo, e são destinados pelo caráter espiritual ao culto da religião cristã e, renascidos como filhos de Deus,(...) participando do sacrifício eucarístico, fonte e ponto culminante de toda a vida cristã, oferecem a Deus a Vítima divina e a si mesmos N’Ela.”(Lumen Gentium, n. 11 ) "Porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.” (Gálatas 3, 27)