Os Sacramentos são Sinais da Humanidade de Cristo em Comunhão Conosco?

Dizer que aqueles que se tornam membros da Igreja pelo Batismo recebem por operação do Espírito Santo por meio da fé o Corpo de Cristo, não é um recurso poético ou mera alegoria. Se a nossa união com o Redentor fosse apenas figurativa, a própria Encarnação teria sido em vão. 

O Verbo assumiu a nossa natureza para santificá-la em Sua própria Pessoa; ao oferecê-la no sacrifício de amor da Cruz e ressuscitar glorioso, Ele a partilha conosco para que a nossa velha humanidade seja totalmente absorvida pela Sua Humanidade Santa. Nos Sacramentos, a nossa comunhão com Cristo atinge a totalidade do nosso ser: não nos unimos a um Deus abstrato, mas ao Mediador Divino que também é de carne e osso, e que se entrega a nós por meio dos sinais visíveis de sua humanidade onipresente. O próprio Senhor atesta a realidade física e espiritual dessa união ao declarar: “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida; quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (São João 6, 55-56). Essa transformação não ocorre no campo das ideias, mas por uma operação Divina real na qual o Sacramento atua como o sinal, o selo da humanidade crucificada e ressuscitada de Jesus. 

O perdão e a vida nova não nos chegam como decretos exteriores, mas pela inserção no próprio mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Como o Apóstolo adverte aos fiéis: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6, 3).

 Estar crucificado com o Redentor não é uma metáfora sentimental, mas o efeito direto da ação sacramental na alma e no corpo. Por meio desses ritos sagrados que Ele nos deixou, o Espírito Santo imprime o seu caráter através do seu selo (“fostes selados com o Espírito Santo da promessa”, Efésios 1, 13), permitindo-nos proclamar com São Paulo: “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2, 19-20). 

Como ensinava São Cirilo de Alexandria (anos 378-444), "(...) assim como duas velas de cera fundidas pelo fogo se tornam uma só, aquele que recebe a Carne de Cristo une-se a Ele de tal modo que o Salvador passa a habitar nele e ele no Salvador." (In Ioannis Evangelium Cap. X) 

O Catecismo da Igreja Católica (§ 1121) confirma que esses sinais conferem um caráter sacramental inapagável— um selo —, pelo qual o cristão participa do próprio sacerdócio de Cristo e é constituído membro vivo do Seu Corpo. Nos Sacramentos, o Filho de Deus comunica Suas virtudes à nossa fragilidade, provando que não nos salvou à distância, mas veio nos tocar, santificar e divinizar a partir de dentro por meio da Sua própria Humanidade Gloriosa. 

Se em Cristo a Humanidade e a Divindade estão unidas de modo inseparável, a nossa comunhão com Ele — agora e na união eterna — haverá de revestir-se dessa mesma totalidade. É impossível fragmentar o Redentor, separando a Sua natureza Humana da Sua essência Divina; por isso, a nossa salvação jamais será uma abstração desencarnada. Ao nos unir a Si pelos Sacramentos, o Senhor garante que a nossa eternidade não consistirá na anulação da nossa natureza, mas na sua plena transformação, permitindo que o nosso corpo e a nossa alma participem para sempre da glória do Deus-Homem Redentor.