
Existe um mistério profundo na forma como Deus escolheu se relacionar conosco: Ele esconde a glória do invisível sob o véu daquilo que podemos ver e tocar, como nos revelam algumas passagens das Escrituras, que:
O Espírito invisível de Deus pairava e descansava sobre as águas visíveis: "Gênesis 1, 2: A terra estava deserta e vazia... e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.”
O lodo untado com a saliva de Cristo trazida oculta em si a graça da cura que alcançou a um cego: "São João 9, 6-7: Dito isso, cuspiu na terra, fez lodo com a saliva e untou com o lodo os olhos do cego. Disse-lhe: ‘Vai, lava-te na piscina de Siloé’. Ele foi, lavou-se e voltou enxergando.”
A glória de Deus esta oculta na nuvem que repousava sobre o tabernáculo sagrado: "Êxodo 40, 34-35: A nuvem cobriu a Tenda da Reunião e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo. ”
A manifestação invisível do anjo de Deus apareceu sob a matéria visível do fogo a Moisés na sarça: "Êxodo 3, 2: O Anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama de fogo, no meio de uma sarça. Moisés olhou e viu que a sarça ardia no fogo, mas não se consumia.”
Se na carne visível de cada homem e mulher habita uma alma invisível, e se na humanidade de Jesus de Nazaré habitava ocultamente a própria Divindade ("Pois Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade", Colossenses 2, 9), nos Sacramentos acontece um milagre semelhante. Na água, no pão, no vinho e no óleo, a Graça acolhe a nossa fragilidade e oculta, nos elementos da criação, a presença sobrenatural do Redentor.
Na Antiga Aliança, o patriarca Jó expressou a angústia da distância entre o Criador e a criação: “Ele não é um homem como eu, a quem eu possa responder... Não há entre nós um árbitro que ponha a mão sobre nós dois” (Jó 9, 32-33). A resposta de Deus a esse clamor foi a Encarnação. Ao assumir um corpo humano incorrupto e imortal, Jesus tornou-se o Mediador perfeito: por ser verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Ele pode dar as mãos ao Pai e à humanidade ao mesmo tempo, unindo o tempo à eternidade.
Deus serve-se da Humanidade gloriosa de Cristo para curar a nossa humanidade ferida. Nos Sacramentos, o extraordinário extrai do natural a sua força santificante: do mortal germina a imortalidade; da matéria sensível brota a vida do Espírito. Como o anjo Rafael revelou no livro de Tobias — “Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível” (Tobias 12, 19) —, os olhos da fé enxergam além das aparências materiais. Na Eucaristia e nos demais sinais sagrados, recebemos o próprio sustento celestial disfarçado em simplicidade terrestre. Como ensina São Leão Magno, resumido pelo Catecismo da Igreja Católica (§ 1115):
“Aquilo que era visível no nosso Redentor passou para os Seus Sacramentos.”
Os Sacramentos são os meios reais pelos quais o Mediador continua estendendo Suas mãos sobre a nossa vida, sanando as deficiências da nossa carne corrompida e nos transformando em participantes de Sua glória Divina na Cruz.