O Novo Adão e a Libertação da Mulher: A Redenção do Éden

As penas temporais (que suportamos ainda neste mundo) como as descritas no Gênesis (3,16-23) — a dor do parto, o suor do rosto como única via de sustento e a dolorosa dominação do homem sobre a mulher — nunca foram o projeto original do Criador. Elas foram, na verdade, os estilhaços trágicos da queda humana, consequências amargas de escolhas nascidas do egoísmo. Como aponta a Teologia da Libertação alinhada com a Igreja pós Concílio Vaticano II, o pecado é essencialmente uma negação do amor, uma ruptura da amizade com Deus e com o próximo, sendo a raiz última do que se conhece como pecado social, aquele que está espalhado em toda estrutura social e estatal sendo responsável direto pela miséria e opressão que vitima grande parte dos seres humanos. Mas a cruz de Cristo rasgou essa sentença. O sacrifício de Jesus não perdoou apenas as pena eterna substituindo a morte definitiva pela ressurreição. Ele também inaugurou o fim das penas temporais já no nosso tempo. É por isso que não há pecado algum quando uma mulher dá à luz sem dor pela anestesia; não há pecado quando o homem divide o sustento com a esposa que trabalha e prospera. E, sobretudo, nenhuma mulher peca ao se recusar a curvar-se aos caprichos autoritários e desumanos de um marido. 

A dominação masculina foi uma maldição do Éden, não um mandamento de Deus. O ápice dessa redenção revela-se numa tipologia prefigurativo entre o velho homem, o primeiro Adão, primogênito de Deus na criação (Gênesis 2 e 3), e o segundo Adão, Cristo, o primogênito de Deus na ressurreição humana (1 Corintios 15,45), mostrando uma simetria divina e poética de reparação. No jardim do Éden, o Velho Adão, derrotado pelo próprio egoísmo e orgulho, não hesita em atirar a mulher, Eva, para o banco dos réus. Diante de Deus, ele atua como o primeiro acusador de sua esposa, tentando salvar a própria pele com uma delação covarde quando cobrado por Deus pelo seu erro: "A mulher que me deste...". O pecado original não foi apenas a desobediência; foi o instante trágico em que a solidariedade conjugal foi rompida e o gênero masculino tornou-se o promotor da acusação contra o feminino. Mas a história clamava por um conserto, e ele surge na figura do Novo Adão: Jesus Cristo, vitorioso e irrepreensível. Onde o primeiro homem falhou, o Segundo triunfou. Se o Velho Adão usou a voz para acusar Eva diante de Deus, o Novo Adão usou Sua voz para atuar como o Advogado de Defesa de outra mulher pecadora — Maria Madalena, figura e símbolo de tantas ‘evas’ oprimidas. Diante de novos "adões"que em suas cóleras seguravam pedras ávidos por derramar sangue feminino em nome de uma moralidade hipócrita, Cristo não aponta o dedo. Ele abaixa-se, escreve na terra o pecado de cada um dos acusadores e a fúria da lei Divina que recairia sobre eles caso Deus não obrasse com misericórdia e perdão.  paralelo é arrebatador: a Acusação do Éden é anulada pela Defesa nos pátios do Templo. Adão culpa Eva para tentar escapar do próprio erro; Cristo defende Madalena assumindo, Ele mesmo, o risco de ser apedrejado ao defender Madalena, como no futuro, sem nada dever, assumira por nós toda culpa diante de Deus, e as pedradas de toda a humanidade na cruz. O Velho Adão inaugura a era do dedo em riste e da dominação; o Novo Adão decreta a absolvição: "Nem eu te condeno". (S. João 8, 11) Ao proteger aquela mulher, o Vitorioso Jesus desfaz as obras da imperfeição antiga mediante Sua graça, resgatando a dignidade saqueada do gênero feminino. 

O Concílio Vaticano II ensina, na Gaudium et Spes, que Cristo, o Novo Adão, revela plenamente o ser humano a si mesmo. Essa restauração não é apenas etérea, mas histórica. O egoísmo individual que gerou a queda não ficou restrito ao coração humano; ele transbordou, corrompeu as instituições e deu origem ao terrível "pecado social" incrustado nas estruturas do Estado e da sociedade civil. É a perpetuação dessa maquinaria estrutural e pecaminosa que ainda hoje oprime a mulher, subjugando-a com salários desiguais, relegando-a a condições de vida precarizadas e subtraindo-lhe violentamente a dignidade ao tratá-la com inferioridade apenas por sua condição de gênero. Em consonância com a urgência de quebrar essas correntes, o padre Gustavo Gutiérrez assevera que "Cristo salvador liberta o homem do pecado, raiz última de toda ruptura de amizade, de toda injustiça e opressão, tornando-o autenticamente livre". A salvação é, portanto, um dom total que não pactua com o pecado do machismo institucionalizado, mas que dá sentido pleno ao processo histórico de libertação de todas as dominações.  Por causa de Cristo, no Tribunal Divino, a mulher deixa de ser a ré da humanidade. Antes sentenciada à submissão pela covardia do primeiro homem, ela é agora, pela defesa irrefutável do Filho de Deus, absolvida e restituída ao seu lugar de honra: ao lado do homem, de cabeça erguida, co-herdeira da graça e parceira em igualdade com o homem na construção do Reino de Deus.