O ERRO DA GNOSE E A SANTIFICAÇÃO DA CARNE: CRISTO SALVA O SER HUMANO POR INTEIRO, EM CORPO E ALMA.

É comum, na história da fé, a tentação de desvalorizar a matéria em nome do espírito. Essa inclinação, conhecida como gnose ou gnosticismo1, argumenta que a atuação divina na salvação se dá exclusivamente pelo espiritual, sem qualquer participação material. Para o pensamento gnóstico, o corpo seria uma prisão e a matéria, algo corrompido e, portanto, inútil para a comunhão com Deus, devendo ser completamente desprezada. Em oposição a essa visão, a Revelação e a Tradição da Igreja nos ensinam o contrário. O próprio Jesus se encarnou, tomou um corpo humano e, assumindo nossa humanidade — ou seja, nossa carne e sangue —, morreu na cruz para nos salvar. Fomos salvos através da carne de Cristo, pois o sacrifício de morte pela redenção dos pecados foi corpóreo, e não espiritual. Deus, que criou a matéria e viu que tudo era bom, escolheu a matéria para se manifestar na Pessoa do Filho Divino e nos salvar. As Escrituras testificam: 

  • Em verdade vos digo: Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino do Céu.” (Jo 3, 5) — A água é um elemento material que se une à ação do Espírito para a regeneração.
  • Tomai, comei; isto é o meu Corpo.” (Mt 26, 26) — Jesus elegeu o pão e o vinho, elementos materiais, para que fossem seu Corpo e Sangue, o alimento da vida eterna.
  • Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.” (Jo 19, 34) — Do lado de Cristo jorraram os sinais dos dois principais sacramentos: a água do Batismo e o sangue da Eucaristia.

A salvação, portanto, não despreza a matéria. Pelo contrário, ela a eleva e santifica, tornando-a, inclusive, o instrumento das ações de amor necessárias à nossa salvação. 



1[1] O gnosticismo "cristão" teve origem nos erros religiosos de Simão Mago (mencionado em Atos 8, 9-24), a quem Santo Irineu de Lyon classifica abertamente como o "pai e raiz de todas as heresias" (Adversus Haereses, Livro I, cap. 23). A partir de Samaria, a gnose expandiu-se e ramificou-se nas escolas teológicas de Menandro, Saturnino de Antioquia e Basílides de Alexandria, atingindo seu ápice com Valentim (Adversus Haereses, Livro I, cap. 1-12). A premissa central consistia na rejeição radical da matéria , alegando que a salvação não se dá pela Redenção carnal de Cristo na Cruz, mas pela posse de um conhecimento intuitivo e secreto (gnosis) reservado apenas a uma elite espiritual (os pneumáticos). Contra essa negação da Encarnação, Santo Irineu escreveu seus cinco livros da obra Contra as Heresias (Desenvolvimento e Derrubada da Falsa Gnose, c. 180 d.C.), demonstrando que o mesmo e único Deus que criou a matéria visível é Aquele que a assumiu e a redimiu no Corpo físico de Jesus.