O Compromisso Imediato da Cruz: O "Hoje" do Paraíso e a Espera da Ressurreição

1. A Antecâmara da Ressurreição: Compreendendo o Paraíso: O paraíso não deve ser confundido com a consumação final do Reino dos Céus em sua plenitude corpórea, mas sim compreendido como o repouso celestial das almas justificadas. É a morada de paz e consolação onde a alma dos fiéis que alcançaram a misericórdia de Deus repousam em comunhão íntima com Cristo ressuscitado estado transitório, porém glorioso de felicidade plena. São Roberto Belarmino1 (1542–1621), em sua clássica obra As Sete Palavras de Cristo na Cruz, ilumina essa realidade ao definir o paraíso como um verdadeiro "jardim do encanto e do descanso". Se o Éden terrestre fascinava por suas águas límpidas, frutos e ar suave, o paraíso celestial concede à alma uma alegria espiritual inefável e o adiantamento da glória divina, distinguindo-se da majestade definitiva da Jerusalém Celestial. 

2. A Petição do Ladrão e a Resposta Imediata de Cristo: O "Quando" é Respondido No "Hoje": Ao lado do Redentor, São Dimas (o bom ladrão) faz um apelo projetado para um tempo distante e indeterminado: "Senhor, lembra-te de mim Quando (ὅταν, hotan) entrares no teu Reino" (Lc 23, 42). Sabendo que a entrada plena no Reino exigiria um mérito o qual não possuia para a glória da ressurreição, o arrependido malfeitor situava a sua pequena esperança projetando-a somente para, talvez, o fim dos tempos. A resposta de Cristo, contudo, supera drasticamente a expectativa daquele homem. Em vez de prometer um socorro para um futuro incerto, o Salvador transforma a promessa remota em um fato consumado na própria hora da morte. Jesus não diz "lembrar-me-ei de ti no fim dos séculos", mas proclama com autoridade divina: "Em verdade te digo: Hoje (σήμερον, sémeron) estarás comigo no Paraíso" (Lc 23, 43). Naquele mesmo dia da crucificação, a justiça do Pai estava aplacada e as portas da misericórdia, abertas. 

3. O Nó Hermenêutico e a Luz do Texto Grego: Críticos e leitores desavisados costumam objetar que o grego antigo (koine) não possuía pontuação, o que permitiria mover a vírgula para ler: "Em verdade te digo hoje: estarás comigo no paraíso". Essa manobra tentaria reduzir a palavra "hoje" a um mero instante do dizer, e não do realizar. Entretanto, a boa regra da interpretação textual — herdada até mesmo do jurista Ulpiano2, que ensinava a interpretar uma sentença pelo conjunto do seu contexto — desfaz esse impasse. O "hoje" (sémeron) dito por Cristo é a resposta direta e intencional ao "quando" (hotan) de Dimas. O ladrão propõe uma espera futura; Cristo responde com a iminência da salvação no tempo presente.

Defender que Jesus disse apenas "Te digo hoje:" tornaria o uso da palavra "hoje" uma redundância inútil, pois era óbvio que Ele estava falando naquele momento. O advérbio sémeron funciona como o divisor de águas que contrapõe o pedido de São Dimas: enquanto o ladrão pede um favor para o hotan ("quando entrares no teu Reino" — um futuro distante), Jesus responde antecipando o benefício para o sémeron ("hoje estarás comigo" — um fato que se consumaria no encerramento daquele mesmo dia solar, após a morte de ambos na Cruz). 

4. O Repouso dos Justos até a Alvorada da Ressurreição: Com o brado da Cruz, a salvoude forma imediata. Ao expirar naquele mesmo dia, o Bom Ladrão inaugurou junto com Cristo o retorno da humanidade no paraíso celestial perdido. Como ensina Santo Afonso de Ligório3 (1696–1787), sobre a súplica do arrependido: "(...) o Senhor, no mesmo dia e imediatamente depois da morte, se lhe mostrou a descoberto e tornou-o felicíssimo, muito embora não lhe comunicasse todas as delícias do Céu antes de ali entrar". O paraíso é o santuário onde as almas dos arrependidos, desatadas dos laços mortais são acolhidas no Cristo, repousando em estado de antecipação da bem-aventurada, aguardando o toque da última trombeta no Juízo Final, quando reassumirão seus corpos glorificados para usufruirem da plenitude da paz e felicidade no Céu.



 
1De Septem Verbis a Christo in Cruce Prolatis (As Sete Palavras Ditas por Cristo na Cruz), Livro I, Capítulo IV: "De secundo verbo: Amen dico tibi, hodie mecum eris in paradiso" (Da Segunda Palavra: Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso).

 2Digesto de Justiniano (Corpus Iuris Civilis), Livro I, Título III, Fragmento 24 (Digesta 1.3.24). O axioma hermenêutico citado é: "Incivile est, nisi tota lege perspecta, una aliqua particula eius proposita iudicare vel respondere" ("É errôneo dar parecer com base em uma parte isolada, sem ter examinado o seu todo").

3Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano, Tomo III (Da Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico). Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 165–167 (Meditação para a Sexta-feira da Paixão / As Palavras de Jesus na Cruz).