
Marcada pela culpa e arruinada pelo pecado original, a nossa natureza humana tornou-se completamente incapaz de suportar e receber diretamente de Deus a majestosa ação de amor e graça que nos concede a salvação. Não teríamos nem os olhos para contemplar tamanha glória, nem o recipiente digno para contê-la e usufruir dela. Se a Divindade se revelasse a nós em sua glória nua e sem véus, nós, em nossa fraqueza pecaminosa, simplesmente nos dissolveríamos.
Por isso, num mistério supremo de condescendência e misericórdia, Deus fez-se homem. Somente a humanidade santíssima de Jesus Cristo — pura, sem mancha e unida à Divindade — possuía a capacidade infinita de acolher, reter e interagir com a plenitude do plano da salvação universal em sua própria carne. O que era impossível a qualquer homem ou mulher, Cristo realizou em sua natureza humana: tornou-se o único vaso digno e capaz de conter o tesouro inestimável da vida eterna: “Filho de Deus se fez homem para que nós nos tornássemos divinos em Cristo; e Ele próprio se manifestou através de um corpo para que nós tivéssemos uma ideia do Pai invisível. (Santo Atanásio. Da Encarnação do Verbo, 54, 3)
Na Cruz do Calvário, o corpo humano de Jesus não foi um mero cenário ou receptáculo passivo da dor do sacrifício que nos salva, mas o instrumento ativo, causal e exclusivo pelo qual essa salvação foi conquistada e disponibilizada a todos os que a buscam.
“É em virtude desta vontade de Deus que fomos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas. (Hebreus 10, 10)” “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, HOMEM. (1 Timóteo 2, 5)”
Somente a humanidade santíssima de Cristo poderia buscar junto à Divindade os supremos atributos da justiça, da pureza e da imortalidade para, em seguida, compartilhá-los com a nossa natureza corrompida pelo pecado. jamais alcançaríamos esses dons celestes se não fôssemos unidos Àquele que é a própria Incorrupção. Cristo veio ser exatamente o que nós somos, assumindo a nossa carne, pois apenas através dessa mediação humana seria possível que a nossa condição mortal e pecadora fosse finalmente absorvida e transfigurada pela Sua imortalidade: “Pois não poderíamos de modo algum receber a imortalidade e a incorrupção se não fôssemos unidos Àquele que é a própria imortalidade e incorrupção. E como poderíamos nos unir a Ele se Ele não se tivesse feito o que somos, a fim de que o que era mortal fosse absorvido pela imortalidade? (Santo Ireneu de Lyon. Adversus Haereses, V, 1, 1)
Nós só podemos usufruir verdadeiramente da salvação no âmbito e no interior da própria humanidade de Cristo, quando a nossa natureza frágil se une à Dele pelos meios sagrados que Ele nos deixou: os Sacramentos. Ao tocar e abraçar a nossa carne decaída por meio dos sinais sagrados provenientes da Carne Imaculada de Jesus, nos quais se absorve a nossa fraqueza e destrói em nós o pecado, criando uma ponte entre Deus e a humanidade. É dessa mística entre matéria e espírito, realidade visível e fé invisível — que da união da nossa humanidade pecadora com a Humanidade Glorificada do Mediador — brota a nossa purificação, permitindo-nos finalmente participar da própria vida de Deus: “(…) Ele nos doou as mais preciosas e magníficas promessas, a fim de que vos torneis participantes da natureza divina. (2 Pedro 1, 4)” “Na sua humanidade, tudo é 'sinal' do seu mistério. (Catecismo §515 / §604)”