Do Símbolo ao Sinal: A Transição da Mera Lembrança à Presença da Realidade

Para compreender como a mente humana capta as representações das realidades, é preciso distinguir dois conceitos frequentemente confundidos, mas profundamente diversos em sua natureza: o símbolo e o sinal

1. O Símbolo: Uma Representação Exterior e Fantasiosa

 A palavra símbolo lança suas raízes no grego clássico (sýmbolon), um vocábulo derivado do verbo symbállein — aquilo que é "lançado ou está junto com algo", o que acompanha, representa ou identifica originariamente o sujeito ou objeto através de um emblema ou distintivo, por exemplo, um anel ou moeda. O símbolo age estritamente no campo da representação fictícia. Sua função é apenas servir como gancho para a mente, evocando a memória — total ou parcial — de uma realidade que não está fisicamente contida e nem presente no objeto simbólico em si: 

  • O Anel: É o símbolo do dedo ou da profissão (como o anel do médico), mas o anel não faz parte do corpo humano.
  • A Bandeira: É o símbolo do país, mas não possui em suas fibras nem o solo e nem os cidadãos daquela nação.
  • O Brasão: É a insígnia de uma família ou o distintivo dos policiais, mas não constitui um membro de carne e osso dessa família ou instituição.

 No símbolo, a separação é total: se o objeto simbólico for destruído, a realidade por ele evocada continua existindo intacta, pois o símbolo não carrega dentro de si a substância daquilo que representa. 

2. O Sinal: Uma Parte do Objeto ou Sujeito

 O termo sinal deriva do latim signum, vocábulo que remete à ideia de uma parte de algo que foi deixado para trás. É também uma representação, mas distingue-se radicalmente do símbolo por um princípio básico: no sinal está contida uma parte real daquilo que ele representa e quer trazer à recordação. Diferente da representação imaginária e fictícia do símbolo, o sinal não é separado do objeto; ele é um fruto ou fração da própria coisa representada: 

  • A Fumaça: É o sinal do fogo. Ora, na combustão do fogo há fumaça; ela brota da própria natureza e presença do fogo.
  • A Umidade: É o sinal da água, mas a umidade já é a própria água em sua ação e contato físico com a superfície.

 O sinal é uma parte ou efeito direto do objeto ou sujeito e, por essa razão, está contido nele e o contém

No Antigo Testamento, o cordeiro do rebanho, primogênito e sem defeito, sacrificado no Templo, era um símbolo de Cristo. Mas na matéria do cordeiro animal não havia nenhuma parte do Corpo de Cristo: (Êxodo 12, 5): “O vosso cordeiro será sem defeito, macho de um ano. Todo o ajuntamento da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo.” (2 Crônicas 35, 11) "Sacrificaram o cordeiro pascal. Com o sangue correndo de suas mãos os sacerdotes fizeram a aspersão, enquanto os levitas esfolavam as vítimas."

Já no Novo Testamento, a Eucaristia é o sinal do CORPO DE CRISTO por excelência: ela traz contida em si a o corpo e o sangue do próprio Cristo: Mateus 26, 26-28 / João 6, 55: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Em seguida, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue da aliança. (…) Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue é verdadeiramente uma bebida.” 

Conclusão: Ao passar da Antiga para a Nova Aliança, a humanidade deixa para trás a pedagogia das sombras e dos símbolos exteriores para abraçar a densidade dos sinais reais. Os Sacramentos da Igreja não são lembranças distantes de um Deus ausente, mas os canais sensíveis através dos quais a própria Carne, o Sangue e a Vida do Mediador continuam a nos tocar, purificar e salvar.