SE DEUS É BOM E CRIOU TUDO, DE ONDE VEM O MAL?

Se Deus criou todo o universo e é a única fonte da vida, como o mal pode existir? Será que foi o próprio Deus quem criou o mal? A Palavra de Deus nos lembra: "Aquele que vive eternamente criou o universo inteiro."— Eclesiástico 18, 1. Se Deus fez tudo, precisamos entender por que a criação original — que Deus contemplou e viu que "tudo era muito bom" (Gênesis 1, 31) — acabou ferida pelo mal e pelo sofrimento.

1. O que é o Mal? (A luz e a escuridão)

Para compreender isso, precisamos aprender uma verdade profunda: O mal não é uma "coisa" criada por Deus do nada; ele é a degeneração, a corrupção ou a privação de um bem. Pense na escuridão: a escuridão não é um elemento criado; ela é simplesmente a ausência da luz. Da mesma forma, o mal só existe porque antes existia o bem que foi corrompido. Como ensina Dionísio (no tratado Sobre os Nomes Divinos, cap. 4): "O mal só pôde existir no universo porque antes havia o bem, embora o bem em si mesmo não produza o mal."

2. A Origem do Mal: O Dom do Livre-Arbítrio

O motor do mal não é a ação criadora de Deus, mas o uso da vontade livre. Deus criou todas as coisas em medida, número e ordem, e concedeu às Suas criaturas a liberdade de escolher. A liberdade é, em si mesma, um Bem elevado, pois o Amor verdadeiro não pode ser forçado e dela depende para existir. Contudo, quando a vontade decide afastar-se do Bem Supremo para buscar a satisfação própria, ela desordena aquilo que era bom. Como aponta Santo Agostinho em O Livre-Arbítrio (cap. 5): "É próprio da vontade escolher o que cada um quer abraçar. E nada, a não ser a própria vontade, pode afastar a alma do caminho da retidão." Deus não nos deu a liberdade para que pudéssemos amar voluntariamente. O mal surge quando usamos essa liberdade de forma autodestrutiva.

3. Entendendo Isaías: Como compreender que Deus "cria o mal"?

Uma das passagens que mais gera dúvidas na catequese é a do profeta Isaías: "Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas."— Isaías 45, 7. Como devemos entender essa expressão do profeta? Aqui está a chave: o mal "criado" por Deus, mencionado em Isaías, nada mais é do que o próprio Bem que Deus originalmente criou, mas que foi transformado em algo destrutivo pela vontade humana livre e corrompida. Deus é o autor da ordem e do universo bom; porém, quando o ser humano usa seu livre-arbítrio para deturpar essa criação e se afastar do Criador, o bem que Deus fez converte-se em ruína e consequência dolorosa para a própria humanidade.

4. O Afastamento Humano e a Imutabilidade Divina

Deus permanece sempre bom, amoroso e imutável: "Deus é amor" (1 João 4, 8) e "Eu sou o Senhor e não mudo" (Malaquias 3, 6).Deus não força ninguém a ficar com Ele: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (João 15, 4). Como diz a Escritura: "Deus criou o homem e o entregou ao seu próprio juízo" (Eclesiástico 15, 14). Como reitera  Agostinho: o ato de afastar-se de Deus constitui o pecado. Deus não é o autor do pecado, mas quando o ser humano opta por viver à própria sorte, o afastamento da Fonte do Bem gera a dor e a desordem.

5. A Liberdade no Éden e a Árvore do Conhecimento

A presença da serpente e da árvore do conhecimento do bem e do mal no Paraíso reflete a própria existência da liberdade no universo. O mal não habitava na árvore em si, pois tudo o que Deus fez é bom. O mal esteve na decisão humana de tomar do fruto antes do tempo, usando da liberdade sem a maturidade e a orientação devidas, pois: "Tudo o que Deus criou é bom, e nada há de reprovável quando se usa com ação de graças."— 1 Timóteo 4, 4

Conclusão:

O mal não é uma força de igual para igual contra Deus. Combater o mal no nosso dia a dia não significa destruir uma entidade oposta a Deus, mas sim reorganizar o Bem: realinhando a nossa vontade livre às virtudes divinas e ao Amor que orienta toda a criação.