Da Fantasia dos Símbolos à Realidade dos Sinais: A Distinção entre os Símbolos Judaicos Antigos os Sacramentos da Nova Aliança.

Assim como Cristo é infinitamente superior à figura de Moisés, a Nova Aliança supera a Antiga em: i) dignidade — por ser selada pelo próprio Deus Encarnado com seu sangue jorrado da Cruz, e não por um servo com sangue animal dos cordeiros sacrificados; ii) em verdade — por trazer a própria realidade Divina para interagir com a realidade humana por meio de Cristo, e não meras figuras do Deus distante como na aliança antiga com Moisés; iii) e em eficácia — por realizar verdadeiramente a redenção, apagando de vez nossos pecados, indo além da simples purificações simbólicas dos judeus. Por isso, os sete sacramentos da Lei Nova os quais provém dos dois sacramentos básicos (Batismo Eucaristia) não são lembranças de Cristo no passado, mas sinais vivos e atuais do Deus que se fez homem, contendo neles a própria substância de sua humanidade sobrenatural inseparavelmente unida à sua Divindade. 

A Transição das Sombras Pedagógicas para a Realidade do Sacerdócio Eterno do Redentor: Os ritos confiados a Moisés possuíam uma função temporária e pedagógica: preparar o povo para a chegada do Cristo que tiraria do mundo o pecado. Sendo figuras proféticas, os símbolos da Antiga Lei apontavam para o futuro, mas não possuíam em si mesmos o poder de instrumentalizar a salvação, porque não estavam diretamente ligados a Pessoa do Cristo Crucificado. Sendo assim, a contemplação e eficácia da salvação para a humanidade jamais poderia vir pelo sacerdócio levítico. Como nos ensina a Carta aos Hebreus: 

“Se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico (porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo), que necessidade havia ainda de que surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, e não segundo a ordem de Aarão? Pois, transferido o sacerdócio, forçoso é que se faça também a mudança da Lei.” (Hebreus 7, 11-12) 

Cristo estabeleceu uma Nova Lei fundamentada em seu próprio CORPO SACRIFICADO. 

O Catecismo da Igreja Católica (§ 1094) confirma essa mudança da Antiga para Nova Aliança: “A Igreja, já no tempo dos Apóstolos e depois na sua Tradição, releu e viveu os acontecimentos do Antigo Testamento a partir da tipologia sacramental, desvelando o que estava oculto sob o véu da Antiga Aliança: as figuras do Antigo Testamento encontram o seu cumprimento e a sua realidade nos Sacramentos da Nova Lei.” 

Do Sangue das Símbolos ao Sangue do Redentor: A diferença vital entre a Antiga e a Nova Aliança reside na natureza e origem do sangue que as sela. Sob a mediação de Moisés, o pacto foi firmado com o sangue de criaturas (animais irracionais), impotente para lavar a culpa interior do homem. 

A Escritura narra a promulgação do antigo culto: “Pois, havendo Moisés pregado todos os mandamentos da lei a todo o povo, tomou o sangue de bezerros e bodes, junto com água, lã escarlate e hissopo, e aspergiu o rolo e todo o povo.” (Hebreus 9, 19) Contudo, na última Ceia, Jesus adota deliberadamente a exata fórmula ritual empregada por Moisés no Sinai, não para uma simples repetição, mas para superá-la e redefinir para sempre a Aliança com Deus. Enquanto o antigo legislador declarou, aspergindo o sangue de animais: “Este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco” (Êx 24, 8), o Cristo proclama na véspera de Sua Paixão: “Este é o MEU sangue da aliança, que é derramado para remissão dos pecados” (Mt 26, 28). Ao utilizar a mesma estrutura verbal de Moisés, mas inserindo nela o peso decisivo do pronome possessivo — “meu sangue” —, o Redentor revoga a antiga economia figurativa e a substitui pela realidade definitiva. 

O ritual imperfeito que dependia do sangue exterior de feras dá lugar ao Sangue do próprio Deus Encarnado, sacramentado na espécie do Pão e Vinho Consagrados, deslocando a salvação da simples lembrança ritual para a efetiva purificação e remissão do pecado humano. Aquele sangue era apenas uma figura pedagógica do verdadeiro Cordeiro. No Monte Calvário, a realidade do sacrifício eterno tomou o lugar das antigas sombras. Na Última Ceia, ao antecipar sacramentalmente a sua Paixão, o próprio Cristo declarou a substituição definitiva da Antiga pela Nova Lei: 

 A Comunhão Mística pela Carne do Verbo Encarnado: Os sacramentos da Nova Aliança não agem por forças humanas, mas retiram sua eficácia diretamente do Corpo de Cristo crucificado e glorificado que pela graça Divina estão dispostos nas fórmulas sagradas dada a Igreja para aqueles que crêem. Pelos mistérios da Encarnação, o Filho de Deus assumiu a nossa natureza para que, nos Sacramentos, a sua Carne se tornasse o nosso alimento e a sua Vida a nossa salvação. O próprio Senhor atesta a realidade dessa união substancial:  “Pois a minha carne É VERDADEIRAMENTE uma comida e o meu sangue, VERDADEIRAMENTE uma bebida. QUEM COME A MINHA CARNE E BEBE O MEU SANGUE PERMANECE EM MIM E EU NELE.” (São João 6, 55-56) Enquanto os judeus viam no maná e nos ritos do deserto meros símbolos de sustento material, a Igreja recebe na Eucaristia a própria Humanidade gloriosa de Cristo.

 O Catecismo da Igreja Católica (§ 1116) reforça essa verdade: “Os Sacramentos são 'forças que saem' do Corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, ações do Espírito Santo atuante no seu Corpo, que é a Igreja.” 

Dos Sacerdotes Ordenados por Cristo por Meio da Sucessão dos Apóstolos. Administradores dos Mistérios Ocultos: Aos que permanecem presos à visão puramente material do mundo, o mistério sacramental continua parecendo uma loucura ou um simples simbolismo humano. Porém, àqueles que foram chamados pela fé, Deus concede a graça de enxergar a realidade invisível abrigada na matéria visível da água, do pão, do vinho e do óleo. As Escrituras proclamam a grandeza desta revelação confiada aos ministros da Igreja: “A vós é concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas; de forma que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.” (São Lucas 8, 10 / cf. São Mateus 13, 11) “Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo E ADMINISTRADORES DOS MISTÉRIOS DE DEUS.” (I Coríntios 4, 1) Os sacramentos deixados por Cristo não são invenções rituais da humanidade nem símbolos vazios à escolha do fiel. São selos eternos, instrumentos vivos através dos quais a Divindade do Mediador continua a tocar a nossa carne, curar a nossa alma e preparar o nosso corpo para a glória da ressurreição eterna. Segue um comparativo de alguns dos símbolos mosaicos antigos substituídos pela realidade sacramental trazida por Cristo:    

Rito ou Símbolo Mosaico (Antiga Aliança)
Realidade Sacramental (Nova Aliança)
Transfiguração Teológica
Cordeiro Pascal (sacrificado antes da fuga do Egito)
Eucaristia (O Cordeiro de Deus Crucificado)
O sangue animal protegia apenas da morte física temporal; o Sangue de Cristo apaga os pecados e dá a vida eterna (Jo 1, 29; 1 Cor 5, 7).
Ceia Pascal Mosaica (cabrito e pães ázimos)
Banquete Eucarístico (Corpo e Sangue de Cristo)
De uma refeição comemorativa da saída do Egito para a comunhão real com a Carne e o Sangue do Verbo Encarnado (Jo 6, 53-55).
Lavações Rituais e Hissopo (Ex 30, 18-21; Sl 50, 9)
Batismo
A água antiga removia a sujeira exterior e a impureza ritual; o Batismo regenera a alma pela ação oculta do Espírito Santo na água (Tt 3, 5).
Maná no Deserto (alimento corporal)
Eucaristia (O Pão Vivo Descido do Céu)
O maná sustentava temporariamente o corpo no deserto; a Eucaristia alimenta o espírito e garante a ressurreição da carne (Jo 6, 49-51).
Unção com Óleo Vegetal (Reis e Sacerdotes)
Crisma e Ordem Sacramental
O óleo assinalava uma vocação exterior; a Unção Sacramental confere um selo como sinal de compromisso, selo ete emitido pelo próprio Espírito Santo (2 Cor 1, 21-22).
Bode Expiatório no Yom Kippur (Lv 16)
Confissão e Penitencia
O rito antigo apenas recordava anualmente a dívida da culpa; a Absolvição apaga verdadeiramente os pecados pela autoridade dada à Igreja (Jo 20, 22-23).