
A fé é a resposta viva e integral do ser humano ao Deus que o salva infinitamente por Amor. No entanto, ela não se esgota no refúgio estritamente íntimo ou na mera confiança passiva de quem sai de si para se entregar à confiança nas coisas invisíveis. A fé autêntica é um compromisso com a história, uma adesão à plenitude desse Deus e ao Seu reflexo no próximo, tanto no indivíduo quanto na coletividade. A plenitude da fé só se sustenta e se valida quando encarnada no amor transformador que opera por gestos concretos.
Na alvorada do cristianismo, a busca da santidade esteve fortemente ancorada numa perspectiva exclusivamente contemplativa e monástica, onde o afastamento ou o desprezo do mundo¹ e o cultivo da santidade pessoal serviam de modelo moral para os demais. Contudo, a partir do século XII e, posteriormente, com a espiritualidade inaciana, operou-se uma transição decisiva na Igreja: a contemplação mostrou-se incompleta se não se desdobrasse no imperativo de transformar o mundo, assumindo a difícil síntese de "ser contemplativo na ação"². Essa trajetória encontra o seu cume no Concílio Vaticano II ao resgatar a espinha dorsal das Escrituras: a verdade categórica trazida nas cartas de São João, que proclamam que "Deus é amor" (1Jo 4,8) e que "todo aquele que não pratica a justiça não é de Deus" (1Jo 3,10).
Na linguagem do Evangelho, a fé se atesta na história porque "a fé se realiza pela caridade" (Gálatas 5,6) e "conhecer a Deus é praticar a justiça" (Jeremias 22,16)³. Para Gutiérrez, a caridade deixa de ser um sentimento abstrato para se tornar o motor de uma práxis libertadora que desmantela as estruturas injustas criadoras da miséria.
A verdadeira caridade, portanto, vai infinitamente além da esmola assistencialista que apazigua as consciências sem alterar realidades. Ela se traduz no imperativo ético e inegociável da justiça, repelindo o "paternalismo, a esmola e a mera revolução para o povo, pois o próprio povo — mormente os setores explorados e injustamente marginalizados — deve tomar para si a consciência que liberta das amarras que os privam de todo direito básico e de toda justiça"⁴. Ter o que comer, assistência à saúde, ter onde morar, o direito de estudar e a garantia de uma vida plenamente humana não são favores concedidos pela condescendência de quem tem muito, mas direitos inalienáveis inerentes a cada pessoa humana⁵. Amar como Cristo amou é recusar todo paternalismo e lutar para que haja consciência social e individual de que a dignidade do vulnerável seja reconhecida, não como uma concessão, mas como a própria manifestação da justiça de Deus no mundo.
Referências e Notas:
¹ Alusão à ideia de Le mépris du monde (O desprezo do mundo), analisada por L. J. Bataillon e J. P. Jossua, e contextualizada por Gustavo Gutiérrez em Teologia da Libertação: Perspectivas (6ª Edição, Ed. Vozes, Petrópolis, p. 16).
² Lema originário da intuição de Santo Inácio de Loiola, formulado como in actione contemplativus, que ressignificou a presença ativa do cristão na história, conforme apontado por Gutiérrez (Ibid., p. 19).
³ Reflexão bíblico-teológica central da obra de Gutiérrez, que amarra de forma indissociável o amor a Deus à exigência prática da justiça ao próximo (Ibid., p. 162).
⁴ Ideia basilar que ecoa o pensamento de Gutiérrez e o documento Conclusiones del II Encuentro nacional de ONIS, reproduzido no livro para criticar o modelo puramente assistencialista e reafirmar o oprimido como agente de sua libertação (Ibid., p. 106).
⁵ Baseado na denúncia estrutural da "violência institucionalizada" e na defesa da vida integral humana presentes na obra e nos documentos do Episcopado Latino-Americano em Medellín (Ibid., pp. 100-101