
A graça é o favor gratuito e imerecido pelo qual Deus concede ao ser humano o Bem, a vida e a salvação sem que haja qualquer mérito prévio de nossa parte. Contudo, na sabedoria divina, nem todas as graças operam no mesmo nível ou produzem os mesmos efeitos na alma humana.
1. A Graça Comum da Criação e a Graça Preveniente da Fé
Deus dispensa a toda a humanidade a chamada graça comum ou providencial. Ela está manifesta no dom da própria vida, no ar que respiramos, na saúde, no sustento diário e nas alegrias do mundo natural. Essa benevolência espalha-se sobre toda a criação, independentemente de raça, credo, gênero ou condição social: “Porque Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (São Mateus 5, 45). Mas acima da ordem natural, existe a graça redentora ou preveniente. É o auxílio divino que toca a inteligência e move a vontade do ser humano ainda afastado de Deus, despertando nele o dom da fé. Essa graça ilumina a consciência e a vontade, permite reconhecer a própria miséria e gera a busca pela verdade. No entanto, a fé inicial é uma semente que precisa germinar.
2. A Graça Sacramental: A Inserção Ontológica em Cristo Se a graça comum nos dá a vida e a graça redentora nos desperta a fé, as graças e virtudes recebidas nos Sacramentos são especialíssimas. Elas não se limitam a nos conceder bens temporais ou auxílios exteriores; os Sacramentos operam a nossa transformação interior ao nos incluir e nos tornar partícipes na Humanidade Santa de Cristo. Através dos sinais sagrados, a eficácia do único Sacrifício da Cruz atravessa o tempo e o espaço para nos tornar participantes da natureza divina, pessoas de todos os locais e em todas as épocas. Não existe outra via para receber essas virtudes específicas: No Batismo: O renascimento espiritual como filho adotivo de Deus e a regeneração da natureza decaída ocorrem exclusivamente na água e no Espírito Santo. Na Eucaristia: A união íntima e substancial da nossa carne e do nosso sangue com a Carne e o Sangue glorificados do Salvador dá-se estritamente no altar. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica (§ 1129): “A Igreja afirma que para os fiéis, os sacramentos da Nova Aliança são necessários à salvação. A graça sacramental é a graça do Espírito Santo dada por Cristo e própria de cada sacramento.”
3. O Destino da Fé é a Vida Sacramental A fé que não conduz aos Sacramentos permanece incompleta. O propósito fundamental da graça redentora ao suscitar a fé no coração humano é justamente conduzi-lo à compreensão, ao desejo e à adesão aos Sacramentos da Igreja. É nos sinais sagrados que o Verbo Divino Encarnado sela o ser humano por inteiro, preparando o corpo e a alma para a imortalidade. A graça comum nos sustenta na terra, a graça da fé nos aponta o caminho, mas somente a graça sacramental nos reveste da Humanidade Gloriosa do Cordeiro, tornando-nos plenamente aptos para a vida eterna na presença de Deus.