
Dentre todas as mulheres, apenas a Santíssima Virgem obteve o privilégio de ser, simultaneamente, Mãe e Virgem. Nela, a virgindade não impediu a fecundidade, nem a fecundidade destruiu a virgindade. Faz parte da natureza perfeitíssima de Nosso Senhor agir sem causar dor, rupturas ou destruição. Da mesma forma que entrou no cenáculo sem derrubar paredes, Ele veio ao mundo sem violar as entranhas de sua Mãe Santíssima:
"Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles."
— São João 20, 26
A Revelação mostra que as figuras de Eva e Maria estão intimamente entrelaçadas na história da salvação. Eva, a primeira mulher, era virgem e imaculada quando estabeleceu aliança com a serpente:
"1. A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: 'É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?' 2. A mulher respondeu-lhe: 'Podemos comer do fruto das árvores do jardim. 3. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.' 4. 'Oh, não!' – tornou a serpente – 'Vós não morrereis! 5. Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.'"
— Gênesis 3, 1-5
Entre Eva e a serpente houve confiança e cumplicidade, tornando a mulher o instrumento de aproximação entre a humanidade e o pecado. A virgindade representa a santificação do ventre. Ao criar o útero de Eva, Deus instituiu um santuário destinado a gerar, com seu esposo, descendentes perfeitos que povoariam o Paraíso e honrariam o Criador eternamente (cf. Gn 1, 28; Gn 2, 23-24). Contudo, da adesão livre de Eva ao engano da serpente ocorreu o inverso: em vez de gerar os santos de Deus, seu ventre — agora sob o domínio do pecado — concebeu uma humanidade decaída:
"Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado."
— Salmo 51, 7 (50, 5)
"Concebem a iniquidade e geram o mal; o seu ventre prepara enganos."
— Jó 15, 35
"Esse alimento se corromperá em seu ventre; nas suas entranhas será como veneno de cobra."
— Jó 20, 14
O pecado de Eva — a busca por se igualar a Deus — maculou o santuário do seu ventre. Uma vez que o pecado afetou o ventre, a Justiça Divina também se manifestou sobre ele:
"Então, o Senhor Deus disse à serpente: 'Porquanto fizeste isso, maldita serás entre todos os animais... sobre o teu ventre rastejarás e poeira comerás todos os dias da tua vida.' Disse também à mulher: 'Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores...'"
— Gênesis 3, 14.16
Se por uma virgem imaculada (Eva) o pecado entrou no mundo, Deus utilizou outra Virgem Imaculada (Maria) para introduzir o Salvador que derrotaria o pecado. Do ventre manchado de Eva originou-se a humanidade pecadora. Já o ventre da Santíssima Virgem foi preservado como o Novo Santuário Puríssimo, reservado exclusivamente para gerar a humanidade santa, perfeita e incorrupta do próprio Verbo Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Jo 1, 1-14; Sl 127, 3).
"Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas."
— Hebreus 9, 24
Essa correspondência já era ensinada pelos primeiros padres da Igreja:
"Como por uma virgem caiu o gênero humano, assim veio também a salvação por outra virgem [1]; porque a desobediência virginal foi compensada, em contrapartida, por uma obediência virginal."
— Santo Irineu de Lião (Adversus Haereses, III, 22, 4)
"Eva, quando ainda era virgem e incorrupta, concebendo a palavra da serpente, deu à luz a desobediência e a morte. Mas a Virgem Maria concebeu por fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe deu a boa-nova de que o Espírito do Senhor viria sobre ela."
— São Justino Mártir (Diálogo com Trifão, anos 100-165)
Se a primeira virgem gerou o pecado, a segunda Virgem só poderia gerar santidade. Através de Maria, Deus restaurou o Seu Santuário. Por causa da vitória de Cristo sobre a morte, Maria não poderia gerar outros filhos de origem humana com São José. Tais descendentes trariam a marca da natureza pecaminosa, o que contaminaria novamente o santuário restaurado, regredindo a segunda Virgem à condição de mãe de uma humanidade pecadora:
"A Santa Virgem guardou cuidadosamente a tocha da virgindade, atenta para que jamais fosse extinta ou contaminada."
— São Gregório de Neocesaréia (II Homilia da Anunciação, anos 213-270)
Apenas o Filho de Deus — o descendente santíssimo profetizado em Gênesis 3 — foi concebido nesse Santuário não feito por mãos humanas [2]. Essa realidade foi prefigurada na visão do profeta Ezequiel:
"1. Ele reconduziu-me ao pórtico exterior do santuário, que fica fronteiro ao oriente [3], o qual se achava fechado. 2. O Senhor disse-me: 'Este pórtico ficará fechado. Ninguém o abrirá, ninguém por aí passará, porque o Senhor, Deus de Israel, por aí passou; ele permanecerá fechado. 3. O príncipe, entretanto, poderá ali assentar-se para tomar sua refeição [4] diante do Senhor. Ele entrará pelo vestíbulo do pórtico e sairá [5] pelo mesmo caminho.'"
— Ezequiel 44, 1-3
Por meio do descendente da Mulher (a Nova Eva), somos resgatados da condição pecadora para uma humanidade restaurada no sacrifício do Corpo de Cristo (Hb 10, 10), cujo material biológico foi assumido do corpo de sua Mãe, a Sempre Virgem Maria. Por meio de Cristo, Maria torna-se a Matriarca da Humanidade Restaurada:
"Maria não tinha outro filho além de Jesus, e Jesus diz à sua Mãe: 'Mulher, eis aí o teu filho'."
— Orígenes (Comentários ao Evangelho de São João, Livro I, §6, anos 185 a 253)