
À primeira vista, as passagens bíblicas que narram o aprendizado de Jesus poderiam sugerir que a Pessoa Divina do Filho, ao assumir a carne no ventre virginal, abriu mão da sua sabedoria universal para reaprendê-la enquanto homem. Todavia, a fé Católica ensina que, desde a concepção pelo Espírito Santo, Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus na divindade e o Filho do Homem na humanidade (cf. Rm 1, 3; At 13, 33). Sendo plenamente Deus, nenhum dos atributos divinos Lhe faltou no mistério da Encarnação, pois 'n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade' (cf. Col 2, 9). Portanto, a onisciência e a sabedoria suprema jamais Lhe foram subtraídas, atestando a Sagrada Escritura que, logo após o Seu nascimento, o Pai ordenou que os anjos o adorassem (cf. Sl 96, 7; Hb 1, 6), da mesma forma que os magos do Oriente, diante do Menino com sua Mãe Maria, prostraram-se e o adoraram (cf. Mt 2, 11-12). Ora, a adoração (latria) é prerrogativa exclusiva da Divindade, e Divindade só é aquele que além de onipotente e onipresente é também onisciente, de modo que reconhecer Aquele recém-nascido como digno de adoração, confirma simultaneamente a Sua Divindade plena, conforme definido no Concílio de Éfeso (431 d.C.), pois 'a Virgem deu à luz Aquele que é o próprio Deus Conosco (cf. Is 7, 14; Mt 1, 23).
O Salvador não nasceu como uma tábula rasa de moral ou de intelecto, pois sobre Ele repousou, desde a concepção, o atributo da Onisciência, nos dons da sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento e temor do Senhor (cf. Isaias 11, 1-2). O Nome próprio de Verbo de Deus em grego significa ‘Logos’ que significa Sabedoria Eterna na qual estão escondidos todos os tesouros da ciência divina e humana (cf. Col 2, 3; 1 Cor 2, 7).
"Quem envolveu as águas em seu manto? Quem determinou as extremidades da terra? Qual é o seu nome, qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes? O Verbo de Deus nos céus é fonte de sabedoria, seus caminhos são os mandamentos eternos. (Eclesiástico 1, 5)"
Como disso o Apóstolo:
'Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória.' (1 Coríntios 2, 7)
"Nele estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria e da Ciência. (Colossenses 2: 3,8)"
Assim, quando o Evangelho menciona a exclamação dos judeus diante de Sua sabedoria não adquirida em escolas rabínicas — "Como sabe este letras, sem as ter aprendido?" (Jo 7, 15) —, ou a declaração de Jesus de que fala "como o Pai me ensinou" (Jo 8, 28), essas passagens não devem ser interpretadas como um mestre que transmite dados a um aluno ignorante que recebe conhecimento de fora par dentro. Como explica Santo Agostinho em seus Tratados sobre o Evangelho de São João (Tratado 40), "ser ensinado pelo Pai" reflete a eterna geração do Filho, significando que o Verbo recebe da própria Natureza Divina que já está nele, a Ciência Infinita. Quando Deus, na Pessoa do Filho, se torna Homem no ventre da Virgem, Dele não foi ( e nem podia) tirada toda sua Sabedoria. Deus Pai não supriu uma ignorância em Jesus mediante um ensino externo, mas despertou Nele a sabedoria que já lhe habitava plenamente, a qual Ele só revelou no tempo que lhe convinha pela Providência. Para conciliar a onisciência de Cristo com a afirmação evangélica de que "Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens" (Lc 2, 52), a teologia escolástica, sintetizada por Aquino na Suma Teológica (IIIª Parte, qq. 9-12), e o Magistério da Igreja, no Catecismo da Igreja Católica (CIC §§ 471-474), distinguem três modalidades de conhecimento na alma humana do Redentor:
É estritamente a esta última dimensão — a ciência adquirida — que se refere a passagem de São Lucas. Em Sua mente humana, Jesus experimentou o mundo à medida que Seu corpo crescia, vivenciando experiências pela convivência e pelos sentidos daquilo que já conhecia perfeitamente em sua Sabedoria Divina e tornando Sua Sabedoria visível aos olhos dos homens ao longo de Sua caminhada terrena.