A ONIPRESENÇA HUMANA DO CRISTO: O MISTÉRIO DO CORPO DE CRISTO AINDA PRESENTE NA HISTÓRIA.

 

A fé católica não proclama Deus distante e puramente espiritual, mas o Deus que em Cristo se fez homem sem abandonar sua Divindade. Nisso reside o mistério da Encarnação do Verbo: as naturezas Divina e humana, ou seja, os atributos de Deus e do homem coexistem na única Pessoa — Jesus Cristo (Concílio de Calcedônia, 451 d.C.). Disso decorre uma verdade: Jesus não é onipresente apenas em Sua divindade. Ao assumir a nossa carne, a Divindade tomou para Si os atributos humanos, permitindo que Deus experimentasse a dor, a limitação e a morte na Cruz. Da mesma forma, ao ser glorificada na ressurreição, a natureza humana de Cristo foi elevada e passou a participar dos atributos divinos — incluindo a onipresença que é a capacidade de estar em todos os lugares simultaneamente: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como de Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade.” (João 1, 14) 

O Catecismo da Igreja Católica, alinhado ao Dogma do Concílio de Calcedônia (451 d.C.), reafirma essa união sem confusão e sem divisão: 

As propriedades de cada natureza permanecem intactas e reúnem-se numa só pessoa e numa só hipóstase.” (Catecismo CIC, n. 467)

 Uma presença completa e não fracionada. Seria um erro imaginar Cristo presente no mundo de hoje apenas como um “espírito imaterial”. Onde o Verbo está, Ele está por inteiro: em humanidade e Divindade. Em corpo, sangue, alma e Divindade. 

O Apóstolo lembra que “por pouco tempo o fizeste inferior aos anjos; de glória e de honra o coroaste” (Hb 2,7). As limitações físicas de Jesus — como estar restrito a um único espaço geográfico — foram voluntárias e temporárias, durando até a sua entrega no calvário. Ao ressuscitar, sua humanidade libertou-se de todas as amarras espaciais, tornando-se capaz de alcançar e preencher a história inteira de modo real e ativo. E é precisamente através dos sacramentos que essa humanidade glorificada e onipresente nos alcança por seus sinais. Quando Cristo promete que o mundo não o veria, mas que os seus o veriam e viveriam d'Ele (cf. Jo 14,19), ele não oferece uma recordação abstrata. No texto sagrado, a "verdade" (aletheia) aponta para o que é real, concreto e palpável nos sacramentos da Igreja, e em especial: 

  • Na Eucaristia:

 Ao declarar "Isto é o meu corpo" (1Co 11,24), Cristo não usa um símbolo, mas oferece a própria substância de sua humanidade viva, onipresente e glorificada: “No santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos 'verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue com a alma e a Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo'.” (CIC, n. 1374) 

  • No Batismo:

 O auxílio Divino vem até nós por meio da "água e do sangue" (1Jo 5,6), elementos materiais que atestam que a salvação passa pela carne. Negar a presença real e eficaz da humanidade de Cristo entre nós por meio dos Sacramentos seria como se a natureza humana do Salvador ainda continuasse limitada ao tempo, local e espaço. Tornando Sua humanidade glorificada onipresente na Igreja através dos sinais sagrados, Cristo garante que nossa humanidade (não apenas a alma, mas corpo e alma) continue a ser tocada, purificada e nutrida pelo seu sacrifício corporal de amor na Cruz até o fim dos tempos. Assim, a onipresença da humanidade glorificada de Cristo se traduz na prática por meio da Eucaristia: 

  • Simultaneidade Global:

 O mesmo e único Cristo pode se fazer presente ao mesmo tempo em todas as Missas celebradas ao redor do mundo onde se consagre o CORPO E SANGUE de Cristo no sacramento da ceia Eucarística. 

  • Plenitude Indivisa:

 Ele não é fracionado entre os altares; em cada Hóstia consagrada está o Cristo por inteiro (Corpo, Sangue, Alma e Divindade). 

  • Superação do Espaço-Tempo:

Libertada de limitações físicas, Sua natureza humana glorificada, pelo sacramento da Ceia, pode alcançar todos os fiéis no momento presente, cumprindo a promessa de permanecer com a Igreja até o fim dos tempos.