A Medicina da Salvação: Por Que o Remédio Divino Precisa Primeiro Tocar o Nosso Corpo?

A medicina da salvação age por um princípio perfeito: o remédio é aplicado exatamente onde padece a chaga da ferida. Quando o pecado original rompeu a harmonia do ser humano, a corrupção instalou-se na carne. Pela desordem dos instintos físicos — que buscam a satisfação de si mesmos de forma exclusiva —, o corpo tornou-se a porta de entrada para a desorientação da razão, a fraqueza da vontade e o obscurecimento da alma. Se a alma se protege pelo manto do corpo, a enfermidade que atinge a veste acaba por macular aquilo que ela reveste. Por essa razão, a salvação divina não é uma abstração espiritualista: Deus não salva apenas a alma desdenhando a matéria, mas restaura o ser humano em sua totalidade. 

1. A Antropologia Paulina: Primeiro o Natural, Depois o Espiritual

Para curar o ser humano, Deus respeita a ordem da própria criação e da queda humana. Como ensina o Apóstolo São Paulo ao expor a estrutura da redenção e da ressurreição, o caminho da restauração parte daquilo que é sensível para atingir o que é espiritual: “Semeia-se um corpo animal, ressuscita um corpo espiritual. Se há um corpo animado, há também um espiritual... Mas não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois.” (1 Coríntios 15, 44.46) Sendo a nossa carne corrompida e geradora das inclinações que nos afastam de Deus, a sabedoria divina decretou que a graça salvadora nos chegasse mediante uma Humanidade Santa e Incorrupta. O Filho de Deus assumiu uma carne real para que a virtude de Seu Corpo Sacrificado fosse transmitida diretamente ao nosso corpo enfermo: “Pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.” (1 Coríntios 15, 53) “O próprio Deus de paz vos santifique inteiramente, e o vosso ser inteiro — o espírito, a alma e o corpo — seja guardado ileso e sem mancha para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” (1 Tessalonicenses 5, 23)

2. Deus no Toca de Acordo com Nossa Própria Natureza

Tomás de Aquino resume em três situações o porquê de Deus ter escolhido criar nossa relação com Ele por meio dos Sacramentos: “(...) a primeira deve ser tirada da condição da natureza humana, a que é próprio partir do corpóreo e do sensível para chegar ao espiritual e ao Inteligível. Ora, concerne à divina Providência prover a cada ser conforme ao modo da sua condição. E por isso convenientemente a divina sabedoria confere ao homem os auxílios à salvação sob certos sinais corpóreos e sensíveis, chamados sacramentos. - A segunda deve ser tirada do estado do homem, que pelo pecado sujeitou o afeto às coisas corpóreas. Ora, onde padece uma doença aí se deve aplicar ao homem um remédio medicinal. Por isso era conveniente Deus mediante certos sinais corpóreos, aplicar ao homem uma medicina espiritual; pois, se lhe fossem dados remédios puramente espirituais, a sua alma, presa ao material, não poderia servir-se deles. - A terceira, pois, de não ser duro ao homem o separar-se totalmente dos atos corpóreos, foram-lhe propostos práticas sensíveis, nos sacramentos, com os quais salutarmente se exerce a evitar as práticas supersticiosas, - Assim, pois, pela instituição dos sacramentos o homem e ensinado por meio do sensível de conformidade com a sua natureza; humilha-se, reconhecendo-se sujeito às coisas materiais, pois acha nelas um auxílio; e também fica preservado de más ações pela prática salutar dos sacramentos.” (TOMÁS. Santo, Suma Teológica. Sacramentos. Necessidade. Q 61 art. 1)