A CRUZ ESTÁ VAZIA? O SACRIFÍCIO DE  CRISTO É UM EVENTO ETERNO E TRANSCENDENTE NO TEMPO E NO ESPAÇO.

Frequentemente se pensa no sacrifício de Cristo como um acontecimento restrito ao passado, como se o símbolo máximo do altar — o sagrado madeiro da Cruz — tivesse sido abandonado, esvaziando-se após a alvorada pascoal da Ressurreição. Contudo, enquanto o ser humano está preso à sucessão temporal do passado, presente e futuro — vivendo um instante de cada vez —, Deus domina e habita a eternidade, livre de qualquer limitação cronológica e atuando de modo pleno e simultâneo em todas as eras. O Santo Apóstolo Paulo nunca encarou o sacrifício do Calvário como uma página virada da história, mas como uma realidade viva ao seu redor e em seu próprio ser, declarando-se continuamente crucificado com Cristo. A Cruz de Cristo não está vazia; ela está repleta de eternidade, de redenção e da presença viva do Salvador. Por essa razão, a Igreja e cada fiel encontram no sacrifício do Redentor o seu porto seguro de salvação, como atestam as palavras do Apóstolo: 

"Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo." (Gálatas 6, 14)
"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim." (Gálatas 2, 20)

 A Ressurreição jamais veio para anular ou apagar a Cruz; ao contrário, veio para consolidá-la e revelar a sua vitória definitiva. Crucificação e Ressurreição andam juntas como uma única obra indivisível: a Crucificação precedeu a Ressurreição, ao passo que a Ressurreição dá testemunho de que o sacrifício da Cruz foi um ato de redenção perfeito e eficaz. 

Uma subsiste na outra. 

A entrega de Jesus na Cruz é um evento profundamente transcendente ao tempo. Ela não pertence apenas ao ontem, mas está disposta simultaneamente no passado, no presente e no futuro para abraçar cada alma em todas as épocas e lugares. 

A eternidade é aquilo que é imutável — que não passa, não se consome e jamais se encerra, preenchendo a existência em sua totalidade. Ao passo que o finito é marca da incompletude, daquilo que é insuficiente para cobrir todo tempo e espaço, o sacrifício de Cristo revela-se infinito e eterno. Se a Cruz estivesse verdadeiramente "vazia" — no sentido de o sacrifício ser algo do passado que não subsiste em nossa realidade atual —, sua eficácia redentora estaria aprisionada a um único momento da história. A redenção não alcançaria os que viveram no passado, tampouco tocaria os eleitos que ainda hão de vir no futuro — exigindo, em cada época, o surgimento de um novo Cristo. Contudo, por ser um evento eterno e transcendente, a oferta do Calvário atravessa os séculos, abraçando a humanidade de todos os tempos e lugares em um único e definitivo ato de amor. 

O Cristo ressuscitado é, em essência, o próprio Cristo crucificado. Ele é o Senhor glorioso e imutável, onipresente nos momentos centrais da história da salvação. É por isso que, ao contemplar as visões do Apocalipse, São João enxerga Cristo em Sua entrega sacrificial perpétua: 

“Nisto vi, no meio do trono e dos quatro Seres Vivos e no meio dos Anciãos, um Cordeiro de pé, como que sacrificado.” (Apocalipse 5, 6)